Zheng He
| Zheng He | |
|---|---|
| 鄭和 | |
Monumento moderno em Malaca, um dos portos centrais das viagens e da memória regional de Zheng He | |
| Outros nomes | Ma He Ma Sanbao Cheng Ho |
| Nascimento | Ma He 1371[1] Kunyang, Iunã, Principado de Liang |
| Morte | 1433; segundo outra tradição, 1435, aos 61–64 anos |
| Ocupação | Eunuco, almirante, diplomata, explorador e funcionário imperial |
| Período de atividade | Dinastia Ming |
| Serviço militar | |
| Comando | Viagens do tesouro Ming |
Zheng He (chinês simplificado: 郑和; chinês tradicional: 鄭和; pinyin: Zhèng Hé; Wade–Giles: Chêng Ho; 1371 – c. 1433 ou c. 1435) foi um eunuco, almirante, diplomata e alto funcionário chinês da dinastia Ming. Entre 1405 e 1433, comandou sete grandes expedições que levaram frotas da China pelo Sudeste Asiático e através do oceano Índico até a Arábia e a África Oriental. A escala das operações e o alcance político das missões deram a sua trajetória um lugar central na história marítima da China imperial.[2]
Nascido Ma He em Iunã, numa família muçulmana da etnia hui, foi capturado ainda menino durante a conquista Ming da região, castrado e enviado à casa do príncipe Zhu Di, que mais tarde se tornaria o imperador Yongle. Ma He conquistou a confiança do príncipe, lutou a seu lado na guerra pelo trono e, depois da vitória de 1402, recebeu o sobrenome Zheng e cargos de grande autoridade. Sua vida foi moldada tanto pela guerra e pela política da corte quanto pela navegação.[3]
A serviço de Yongle e do imperador Xuande, Zheng comandou frotas formadas por marinheiros, soldados, intérpretes, médicos, artesãos e emissários. As expedições estabeleceram e reforçaram relações entre a corte Ming e numerosos portos, combinando embaixadas, comércio patrocinado pelo Estado, troca de presentes, recolhimento de tributos e, em alguns episódios, força militar. Elas ampliaram temporariamente a presença diplomática e comercial chinesa pelo Índico, mas não criaram um império marítimo permanente nem deram à China controle contínuo sobre suas rotas e cidades portuárias.[4]
Nos intervalos entre as viagens, Zheng exerceu responsabilidades militares e administrativas em Nanquim, protegeu a cidade e supervisionou obras imperiais. Morreu provavelmente durante a última expedição ou pouco depois dela. A corte não manteve o programa de grandes viagens depois da última expedição, num período marcado por novas prioridades fiscais, disputas políticas e crescente atenção à defesa das fronteiras terrestres.[5][6]
Os relatos escritos por integrantes das frotas, as inscrições comemorativas e as cartas de navegação conservaram informações sobre os portos, as sociedades e as rotas percorridas pelas expedições. Embora as viagens tenham perdido espaço nos registros oficiais da dinastia, Zheng voltou a ocupar uma posição de destaque na memória histórica moderna e hoje é lembrado em templos, monumentos, museus, celebrações e nomes de embarcações. O comandante documentado e o herói construído ao longo dos séculos permanecem no centro de debates sobre comércio, poder naval, religião e os usos contemporâneos do passado.[7][8][9]
Biografia
[editar | editar código]Origens familiares e formação
[editar | editar código]Zheng nasceu com o nome Ma He em uma família muçulmana da etnia hui, no subdistrito de Kunyang, em Kunming, Iunã.[nota 1] A região pertencia então ao Principado de Liang, fiel à dinastia Yuan do Norte.[10] Ele tinha um irmão mais velho e quatro irmãs.[11]
Uma genealogia familiar reproduzida por biógrafos apresenta Zheng como trineto em terceira geração de Sayyid Ajjal Shams al-Din Omar, administrador do Império Mongol e governador de Iunã no início da dinastia Yuan. Essa filiação remota depende da tradição genealógica e não tem o mesmo grau de comprovação que o epitáfio de seu pai e os registros da vida adulta de Zheng.[12][13] Mills considera possível que seu bisavô Bayan tenha servido em uma guarnição mongol de Iunã.[14] O avô de Zheng tinha o título de hajji,[15] assim como seu pai, que usava o sobrenome sinizado Ma.[nota 2] Dreyer, Mills e Levathes entendem o título como indício de que ambos fizeram o haje a Meca; o tratamento, sozinho, não constitui um registro independente das peregrinações.[16]
A campanha Ming contra Iunã começou em 1381 e derrubou no ano seguinte o governo de Basalawarmi, príncipe de Liang e aliado da dinastia Yuan do Norte.[17] Ma Hajji, pai de Zheng, morreu em 1381 durante os combates iniciais entre as tropas Ming e as forças mongóis.[18] Dreyer afirma que ele tinha 39 anos e resistia à conquista. Levathes lhe atribui 37 anos, mas não se sabe se lutava ao lado do exército mongol ou apenas foi apanhado pela batalha.[19][20] Wenming, o filho mais velho, sepultou o pai fora de Kunming.[21] Já almirante, Zheng mandou gravar em honra dele um epitáfio composto pelo ministro dos Ritos Li Zhigang em 1 de junho de 1405, dia do Festival do Barco-dragão, uma celebração anual do calendário chinês.[nota 3][22]
Captura e serviço ao príncipe de Yan
[editar | editar código]A captura de Zheng pelas tropas Ming em Iunã, em 1381,[23] aparece numa narrativa biográfica posterior reproduzida por Levathes: o general Fu Youde teria encontrado Ma He em uma estrada e lhe perguntado onde estava o pretendente mongol; o menino teria respondido, em desafio, que o homem saltara em um lago, e o general o teria feito prisioneiro. Como a cena não provém de um relato contemporâneo, seus pormenores não podem ser confirmados.[24] Castrado quando tinha entre 10 e 14 anos,[25][26] foi colocado a serviço do príncipe de Yan.[nota 4][27]
Ma He entrou na casa de Zhu Di, o príncipe de Yan, onze anos mais velho e futuro imperador Yongle.[28][29] Escravizado como servo eunuco, conquistou a confiança de Zhu Di, enquanto o príncipe obteve sua fidelidade.[30] Zhu governava Beiping, a atual Pequim, desde 1380.[31] A cidade ficava perto da fronteira setentrional, diante de tribos mongóis hostis.[32] Ma viveu a juventude como soldado nessa fronteira[33] e participou com frequência das campanhas de Zhu contra os mongóis.[34] Em 2 de março de 1390, acompanhou o príncipe na primeira expedição por ele comandada. O adversário era Nair-Buqa; Naghachu, confundido com ele em parte da literatura posterior, já se rendera aos Ming em 1387 e morrera em 1388. Em abril de 1390, durante uma nevasca, as forças de Zhu Di surpreenderam o acampamento de Nair-Buqa e obtiveram sua rendição.[35][36]
Ma ganhou a confiança do príncipe[37] e, na casa de Yan, também passou a ser chamado "Sanbao", alusão às Três Joias budistas.[38][39] Em outras romanizações, o nome aparece separado como San Bao e também grafado Sam Po.[40] Nos nomes de alguns templos do Sudeste Asiático, a expressão pode designar o próprio Zheng ou as Três Joias do budismo.[41] Levathes considera provável que Ma tenha recebido em Beiping uma instrução que não obteria na capital imperial, Nanquim, pois Hongwu, pai de Zhu Di, desconfiava dos eunucos e preferia mantê-los analfabetos.[42] Hongwu expurgou e matou grande parte da primeira cúpula Ming. Concedeu ainda mais autoridade militar aos filhos investidos de feudos, sobretudo aos do norte, como o príncipe de Yan.[43]
Uma descrição preservada pela tradição familiar afirma que Zheng media sete chi e tinha a cintura com cinco chi de circunferência,[nota 5] as maçãs do rosto e a testa altas, nariz pequeno, olhar intenso, dentes brancos e bem formados como conchas e voz sonora como um sino. O mesmo retrato lhe atribui grande domínio da guerra e muita experiência em combate. Levathes e Dreyer o registram como descrição tradicional, não como medição ou retrato independente produzido durante a vida de Zheng.[44]
Campanha de Jingnan e ascensão na corte
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Quando o jovem eunuco já era conselheiro de confiança do príncipe, a política do imperador Jianwen de reduzir os domínios e as forças de seus tios desencadeou a crise que levou à Campanha de Jingnan, travada de 1399 a 1402 e encerrada com o aparente desaparecimento do soberano e a ascensão de Zhu Di.[nota 6] O príncipe herdeiro morrera em 1393, e seu filho recebera o direito de suceder Hongwu. Quando o imperador morreu, em 24 de junho de 1398, os príncipes de Qin e Jin já tinham falecido, o que deixava Zhu Di como o filho sobrevivente mais velho. Mesmo assim, o trono passou ao neto de Hongwu, coroado imperador Jianwen. Em 1398, Jianwen adotou a política chamada xuēfān (削藩), a "redução dos feudatários", destinada a retirar dos príncipes o poder e as forças militares.[nota 7] Zhu Di rebelou-se abertamente contra o sobrinho em agosto de 1399. Naquele ano, Ma He defendeu o reservatório urbano de Zhenglunba, em Beiping, contra os exércitos imperiais.[45] Em janeiro de 1402, Zhu iniciou a campanha para tomar Nanquim. Zheng esteve entre seus comandantes.[46]
Depois que seus exércitos derrotaram as forças imperiais e entraram em Nanquim em 13 de julho de 1402,[47] Zhu aceitou a elevação a imperador quatro dias mais tarde.[48] Já no trono como Yongle, promoveu Ma He a grande diretor (太監, tàijiān) da Diretoria dos Servos do Palácio (内宫監).[nota 8][49] No Ano-novo chinês de 11 de fevereiro de 1404, concedeu-lhe o sobrenome Zheng pelo desempenho na defesa de Zhenglunba em 1399.[50] O eunuco também se distinguira na tomada de Nanquim em 1402.[51]
Na nova administração, Zheng ocupou os cargos mais altos, primeiro como grande diretor e, nas viagens marítimas, como enviado-chefe (正使, zhèngshǐ).[52] Nas três décadas seguintes, realizou sete expedições em nome do imperador, com trocas comerciais e recolhimento de tributos no Pacífico ocidental e no oceano Índico.
Administração de Nanquim
[editar | editar código]Zheng foi a Palimbão, em Sumatra, em 1424, para entregar um selo oficial[nota 9] e uma carta de nomeação a Shi Jisun, empossado comissário de pacificação.[nota 10][53] A entrada do Taizong Shilu de 27 de fevereiro de 1424 informa que Shi enviara Qiu Yancheng para pedir a Yongle a aprovação de sua sucessão ao pai, Shi Jinqing, no comissariado de Palimbão.[54] Ao regressar, Zheng soube que o imperador morrera durante sua ausência. Yongle faleceu em 12 de agosto de 1424, e Zhu Gaozhi herdou o trono em 7 de setembro de 1424 como imperador Hongxi.[55][56]

No próprio dia da ascensão, Hongxi encerrou novas viagens do tesouro[57] e, em 24 de fevereiro de 1425, nomeou Zheng defensor de Nanquim, ordenando-lhe que conservasse o comando da frota para proteger a cidade.[58] Em 25 de março de 1428, Xuande incumbiu Zheng e outros oficiais da supervisão das obras de reconstrução e reparo do Grande Templo Bao'en, em Nanquim.[59] O complexo, concluído em 1431,[60] incluía a torre-pagode que se tornaria conhecida como Torre de Porcelana de Nanquim.[61]
Em 15 de maio de 1426, Xuande mandou a Diretoria de Cerimônias repreender Zheng por uma infração[nota 11] depois que um funcionário[nota 12] pediu ao imperador que recompensasse os operários dos templos de Nanquim. Xuande censurou o funcionário por transferir os custos para a corte, em vez de cobrá-los dos monges, e concluiu que Zheng e seus companheiros haviam instigado a petição. Para Dreyer, o tom da repreensão deixa entrever problemas anteriores, embora faltem informações sobre eles. Xuande viria a confiar em Zheng.[62]
Em 1430, Xuande o escolheu para comandar a sétima e última expedição ao "Oceano Ocidental", nome dado ao oceano Índico.[nota 13] Zheng recebeu em 1431 o título Sanbao Taijian (三寶太監), que juntava o apelido Sanbao ao cargo de grande diretor.[63]
Identidade e práticas religiosas
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As inscrições de Liujiagang e Changle apontam a devoção de Zheng a Tianfei, nome dado a Mazu, protetora dos marinheiros, como a vertente dominante de sua fé.[nota 14] A deusa ocupava lugar semelhante entre os tripulantes da frota do tesouro.[64] Antes de partir para o "Oceano Ocidental", Zheng buscava proteção junto a Tianfei e nos túmulos de santos muçulmanos da colina Lingshan, acima de Chincheu (Fuquiém).[65] Em vez de uma adesão exclusiva a uma única tradição, Dreyer interpreta o conjunto dessas práticas como uma herança religiosa "eclética", na qual a formação islâmica familiar coexistia com associações budistas e, sobretudo, com a devoção marítima a Mazu.[66]
O poder da deusa, que já se manifestara em tempos passados, revelou-se com abundância na geração presente. Em meio às águas revoltas, quando sobreveio um furacão, de súbito viu-se uma lanterna divina brilhando no topo do mastro. Assim que surgiu aquela luz milagrosa, o perigo cessou, e mesmo sob o risco de emborcar todos se sentiram seguros e sem motivo para temer.
Zheng He e seus companheiros, inscrição de Changle, sobre o fogo de Santelmo associado a Tianfei.[67]
Estudos e tradições locais atribuem a Zheng ou a integrantes muçulmanos da frota a construção e o uso de mesquitas durante as expedições; a comprovação e a autoria, porém, variam conforme o porto e não devem ser tratadas como um único programa construtivo documentado.[68][69] As inscrições ligadas às viagens mostram de modo mais direto a difusão do culto a Mazu.[70] Não há registro conclusivo de que o próprio Zheng tenha realizado o haje. Segundo Ma Huan, quando uma divisão da última expedição chegou a Calecute, o eunuco Hong Bao enviou um intérprete e seis companheiros num navio local até Jidá e Meca; o texto é ambíguo sobre a presença de Ma Huan, mas não inclui Zheng entre os sete enviados.[71] O contato entre a corte Ming e os países muçulmanos cresceu durante as expedições.[72][73] Zheng visitou ainda túmulos de santos islâmicos em Fujian.[74]
Viagens do tesouro
[editar | editar código]Contexto e objetivos
[editar | editar código]A dinastia Yuan e o crescimento do comércio sino-árabe no século XIV haviam alargado o conhecimento chinês do mundo. Mapas "universais" antes restritos à China e aos mares vizinhos avançaram para sudoeste e passaram a delinear com mais precisão a Arábia e a África.[75] O governo Ming financiou sete expedições navais entre 1405 e 1433.[76] Yongle contrariou determinações expressas de Hongwu no Huang Ming Zuxun.[77][nota 15] Os objetivos não são descritos de maneira uniforme pelos historiadores. Wang Gungwu relaciona as viagens à expansão das relações exteriores, ao comércio estatal e, em Malaca, a benefícios mútuos; Geoff Wade enfatiza legitimação dinástica, submissão política, coleta de bens e controle de portos e rotas; Lo Jung-pang as interpreta como instrumento de hegemonia e demonstração de força.[78][79][80] Em conjunto, essas leituras sustentam que a corte usou as expedições para diplomacia tributária, comércio dirigido pelo Estado e projeção de poder, mas não autorizam reduzir todas as viagens a um único motivo. A História dos Ming, compilada séculos depois, também vinculou as primeiras expedições à possível busca pelo imperador Jianwen, que desaparecera em 1402; essa finalidade não é confirmada de modo independente por um registro contemporâneo.[81] Deng caracterizou essa interpretação, e não um fato estabelecido, como "a maior caçada humana aquática da história da China".[82]

Apesar da escala sem precedentes da operação, a frota percorreu caminhos comerciais marítimos conhecidos entre a China e a Península Arábica e usados ao menos desde a dinastia Han.[83][4] O grande contingente de militares levou alguns autores a entender que as expedições também buscavam projetar o poder chinês.[84] No período dos Três Reinos, o reino de Wu Oriental enviou Zhu Ying e Kang Tai numa missão ao Sudeste Asiático. Kang Tai chegou a Funan e, ao regressar, reuniu informações sobre uma rota marítima em direção a Daqin, nome geralmente associado ao mundo romano; os trechos preservados de sua obra descrevem esse itinerário, mas não demonstram que a própria embaixada tenha alcançado o Império Romano do Oriente.[85] Séculos de interrupção terminaram quando a dinastia Song retomou o comércio marítimo chinês em grande escala no Pacífico Sul e no Índico, alcançando a Península Arábica e a África Oriental.[86] Comerciantes e assentamentos chineses já existiam em diversos portos do Sudeste Asiático antes das viagens. Malaca, contudo, era uma potência portuária recente, cujas relações oficiais com os Ming se abriram entre 1403 e 1405; as fontes disponíveis não sustentam com a mesma segurança a afirmação de que já houvesse ali uma comunidade chinesa numerosa na primeira chegada da frota.[87][88] O Panorama geral das costas oceânicas (瀛涯勝覽, Yíngyá Shènglǎn), escrito pelo intérprete Ma Huan em 1416, relata com minúcia os costumes e os modos de vida encontrados nos portos.[89] Ma chamava os chineses expatriados de povo "Tang" (唐人, Tángrén).[nota 16]

Organização da frota
[editar | editar código]Zheng recebeu o comando da enorme frota e das forças armadas que partiram nessas expedições.[91] Wang Jinghong foi nomeado segundo no comando. Os preparativos mobilizaram tantos intérpretes que um instituto de línguas estrangeiras foi criado em Nanquim.[nota 17][92] Um decreto datado de 11 de julho de 1405 confiou a primeira expedição a Zheng e aos outros comandantes; a frota reuniu-se em Nanquim e seguiu para Liujiagang, em Taicang, na região de Suzhou, antes de sair ao mar.[93][94] Uma reconstrução muito citada atribuiu à primeira frota 317 embarcações e quase 28 mil tripulantes. Dreyer argumentou, porém, que o total de 317 resultava da soma de 62 navios do tesouro a 255 embarcações associadas a ordens de construção, embora os 62 ou 63 navios maiores provavelmente já estivessem incluídos nessas ordens. Para a primeira viagem, ele propõe no máximo 255 embarcações, incluindo cinco encomendadas em Fujian, e conserva o registro de 27 800 tripulantes.[95] O total de navios não é uniforme nas fontes: uma reavaliação dos registros Ming situa as diferentes missões entre cerca de 50 e 250 embarcações e registra 27 a 30 mil pessoas apenas para as maiores frotas. Portanto, 317 não deve ser apresentado como inventário contemporâneo da frota, mas como resultado de uma reconstrução posteriormente contestada.[96]

As embarcações levavam navegadores, exploradores, marinheiros, médicos, operários e soldados, além do intérprete e cronista Gong Zhen. Outras seis expedições partiram de 1407 a 1433. É provável que todas tenham sido grandes operações, mas a documentação não permite afirmar que as frotas tivessem tamanho semelhante: os números preservados variam e faltam totais seguros para algumas viagens.[97][96]
Em vez de navegar necessariamente como uma única formação do início ao fim, a frota formava destacamentos que partiam de portos de encontro para destinos diferentes e depois voltavam a se reunir; a operação dependia, portanto, da coordenação entre comandantes, intérpretes, pilotos, escribas, médicos, artesãos e soldados.[nota 18] A organização por esquadrões também explica por que as fontes podem atribuir à mesma viagem um alcance maior do que o percurso da frota principal.[98][99]
Cronologia das sete viagens
[editar | editar código]A cronologia abaixo resume o alcance principal das expedições e distingue a rota da frota principal dos destinos alcançados por destacamentos. As datas de partida e regresso e a própria presença de Zheng em todos os trechos não são igualmente bem documentadas.[100][101]
| Viagem | Período | Alcance e acontecimentos principais |
|---|---|---|
| 1.ª | 1405–1407 | Partiu de Liujiagang e passou por Champa, Java, Palimbão, Malaca, Samudera Pasai, Seri Lanca e portos do sul da Índia até Calecute. No regresso, a frota derrotou e capturou o chefe pirata Chen Zuyi em Palimbão. |
| 2.ª | 1407–1409 | Voltou ao Sudeste Asiático, a Seri Lanca e à costa do Malabar, com escalas em Cochim e Calecute. A missão devolveu enviados estrangeiros e participou do reconhecimento de um novo governante de Calecute; a participação pessoal de Zheng é discutida. |
| 3.ª | 1409–1411 | Repetiu em linhas gerais a rota até Calecute. Em Seri Lanca, o conflito com Vira Alakeshwara terminou com a captura do soberano e sua apresentação à corte Ming. |
| 4.ª | 1413–1415 | Estendeu a rota regular para oeste até Ormuz, no golfo Pérsico. Um destacamento foi à Bengala e retornou à China com enviados de Melinde, enquanto representantes de numerosos outros Estados acompanharam a frota. |
| 5.ª | 1417–1419 | A expedição levou de volta enviados estrangeiros e percorreu Ormuz, Dofar, Áden, Mogadíscio, Barawa e Melinde. Animais africanos, entre eles girafas, chegaram à corte Ming por essa rede diplomática. |
| 6.ª | 1421–1422 | Devolveu embaixadores a seus países. A frota se dividiu em vários esquadrões destinados ao sul da Ásia, à Arábia e à África Oriental; Zheng regressou antes de algumas dessas unidades. |
| 7.ª | 1431–1433 | A última expedição tornou a seguir até Ormuz, enquanto destacamentos visitaram portos do mar Vermelho e da África Oriental. Uma missão secundária partiu de Calecute para Jidá, porto de acesso a Meca. |
Diplomacia, comércio e uso da força
[editar | editar código]As missões reuniam funções que não constituíam esferas separadas para a corte Ming: apresentavam credenciais e presentes imperiais, promoviam o intercâmbio tributário e comercial e, quando encontravam resistência, empregavam coerção militar.[nota 19] As viagens funcionavam, portanto, como diplomacia marítima, comércio dirigido pelo Estado e projeção de poder.[4][96]

As frotas visitaram Java, Sião, o Sudeste Asiático Marítimo, a Índia, o Chifre da África e a Península Arábica, entregando e recebendo mercadorias pelo caminho.[4][102] A associação das viagens a Brunei aparece em tradições locais e em textos tardios, mas as fontes chinesas preservadas não permitem confirmar que Zheng ou sua frota tenham aportado ali.[103] Zheng oferecia ouro, prata, porcelana e seda. Em troca, a corte recebeu, em diferentes momentos e por intermediários distintos, animais e produtos como avestruzes, zebras, camelos, marfim e girafas; as fontes não permitem atribuir todos esses itens diretamente à Costa Suaíli nem a uma única viagem.[94][102][104][4] A girafa apresentada pela embaixada de Melinde foi tomada por um qilin e entendida como confirmação do Mandato do Céu concedido ao governo.[nota 20][104][105] Uma estela datada de janeiro de 1523, na mesquita do beco Daxuexi, em Xi'an, menciona a quarta viagem marítima de Zheng a Tianfang, na Península Arábica.[nota 21][106]
Com tropas a bordo, a frota exibia a força do Império do Meio[nota 22][107] e reprimiu piratas que atacavam havia muito tempo as águas chinesas e do Sudeste Asiático. Bentley e Ziegler reproduzem uma descrição segundo a qual Zheng "andava como um tigre" e recorria à violência quando julgava necessário expor o poder militar chinês; a frase deve ser lida como caracterização atribuída, não como descrição objetiva de seu temperamento.[108] Entre os piratas estava Chen Zuyi, capitão temido na região, derrotado e levado à China para ser executado.[96] Em Palimbão, os Ming criaram a Superintendência de Pacificação do Porto Antigo e nomearam o chefe local Shi Jinqing para dirigi-la.[109][110] Zheng travou depois a guerra Ming–Cota contra o Reino de Cota, no Ceilão. Pereira interpreta outros episódios na Arábia e na África Oriental como demonstrações militares diante de ameaças de autoridades locais.[111] A partir da quarta viagem, a frota transportou para a China numerosos enviados estrangeiros recebidos na corte Ming.[4][112]

Entre os cativos levados à China estava Vira Alakeshwara, governante do Ceilão; os registros da expedição o apresentaram à corte como responsável por ataques à missão chinesa, e o imperador acabou por libertá-lo e enviá-lo de volta.[113]
Navegação, monções e cartografia
[editar | editar código]Como o calendário das viagens dependia do regime das monções asiáticas, os navegadores usavam os ventos sazonais para atravessar o mar da China Meridional e o oceano Índico e ajustavam partidas, escalas e regressos às mudanças anuais de direção.[nota 23] A espera por uma estação favorável podia prolongar a permanência em certos portos, e essa relação entre clima, rota e tempo de viagem ajuda a explicar tanto a divisão em destacamentos quanto a duração de dois a três anos de várias expedições.[114]

As cartas náuticas das viagens, reunidas no Mapa de Mao Kun, foram publicadas no tratado militar Wubei Zhi, escrito em 1621 e impresso em 1628, mas remontam às expedições de Zheng e a viagens anteriores.[nota 24][115] A forma original era uma faixa de 20,5 por 560 centímetros que podia ser enrolada. Depois, ela foi dividida em quarenta páginas. A escala varia de cerca de 11,3 quilômetros por centímetro na região de Nanquim a 346 quilômetros por centímetro em trechos da costa africana.[116]
O exame dos fólios 19V a 20R, que cobrem o oceano Índico, o sul da Índia, Seri Lanca, as Maldivas e a África Oriental, aponta uma composição feita com quatro mapas, um para Seri Lanca, um para o sul da Índia, outro para as Maldivas e o último para cerca de 400 quilômetros da costa oriental africana, sem ultrapassar 6 graus ao sul da linha do Equador.[nota 25] Cada mapa recebeu uma orientação distinta para acompanhar as correntes e os ventos necessários à navegação, sem a uniformidade de uma carta formal. A partir do conhecimento detalhado da costa africana incorporado ao conjunto, Pereira propõe a participação de pilotos de língua árabe em sua elaboração; trata-se de uma inferência cartográfica, não de uma lista preservada de autores.[117]

Sem procurar uma representação bidimensional exata, o Mapa de Mao Kun registra instruções de rumo num sistema de bússola com 24 pontos, cada qual expresso por um símbolo chinês, e informa tempo ou distância de navegação, considerando ventos e correntes locais.[nota 26] Em certos pontos aparecem sondagens de profundidade.[nota 27] A carta também assinala baías, estuários, cabos, ilhas, portos, montanhas costeiras, referências como pagodes e templos, além de baixios rochosos. Na identificação apresentada por Mills, mais de 80% dos cerca de trezentos lugares nomeados fora da China podem ser localizados com segurança; o mapa contém ainda cinquenta observações da altura dos astros.[118]
O piloto especializado, chamado huozhang, combinava o roteiro escrito com a bússola e trabalhava em coordenação com os timoneiros.[nota 28] Fontes chinesas dos séculos XV a XVIII, entre elas registros associados às viagens, mencionam também a medição da profundidade, a observação do Sol e das estrelas e o uso de varetas de incenso ou ampulhetas para marcar o tempo. Os roteiros exprimiam distâncias em vigílias, ou geng, das quais dez completavam um dia, mas funcionavam como guias a serem complementados pela experiência da tripulação e pelo conhecimento de pilotos locais.[nota 29][119][120]
Suspensão das viagens
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Depois da morte de Yongle em 1424, seu sucessor, Hongxi, cujo reinado se estendeu de 1424 a 1425, suspendeu as viagens. Zheng partiu mais uma vez sob Xuande, filho de Hongxi e imperador entre 1425 e 1435, e depois disso as expedições da frota do tesouro terminaram. Ao justificar a interrupção, Xuande considerou acertada a decisão paterna e declarou desnecessário relatar em pormenor como seu avô enviara Zheng ao Oceano Ocidental.[77] As viagens contrariavam as regras do Huang Ming Zuxun, documento fundador da dinastia promulgado por Hongwu:[77]
Alguns países distantes me pagam tributo a grande custo e enfrentando grandes dificuldades, nada disso por vontade minha. Devem ser enviadas mensagens para que reduzam o tributo e evitem despesas elevadas e desnecessárias dos dois lados.[121]
Chang interpreta a oposição às expedições como parte de um conflito entre eunucos ligados ao palácio e funcionários letrados que invocavam prioridades confucianas de governo.[nota 30][122] Estudos mais recentes acrescentam uma disputa fiscal: Yiu Siu sustenta que burocratas civis procuraram limitar a capacidade de imperadores financiarem grandes projetos marítimos por meio de receitas controladas pelo palácio.[6] Nessa cronologia, 1433 marca o regresso da última expedição comandada por Zheng, não uma extinção administrativa instantânea de toda atividade naval. A interrupção consolidou-se depois da morte de Xuande, em 1435: a corte aboliu o posto responsável pelos navios oceânicos, dispersou tropas, desmantelou embarcações ou as converteu em barcos rápidos costeiros e encerrou a produção em massa de artigos destinados às trocas ultramarinas.[6] Depois da morte de Zheng, os sucessores reduziram o espaço das viagens nos relatos oficiais. A documentação preservada ficou incompleta e dispersa; uma fonte posterior relata que altos funcionários mandaram destruir documentos quando o imperador Chenghua cogitou retomar as viagens, mas ela não permite medir quanto do arquivo se perdeu nem demonstrar um apagamento total e coordenado.[6][7]
Morte
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As histórias dinásticas oficiais não registram a morte de Zheng, e por isso nem o ano nem o lugar são seguros.[123] Dreyer considera mais provável que ele tenha morrido em 1433, durante a sétima viagem ou pouco depois dela; a associação específica com Calecute aparece em tradições e relatos posteriores, sem registro contemporâneo conclusivo.[124] Mills conserva a data alternativa de 1435 e a tradição de que Zheng permaneceu como defensor de Nanquim.[125] O suposto sepultamento no mar pertence à tradição associada à hipótese de morte durante a viagem e tampouco pode ser confirmado pelas histórias dinásticas.[126][127][128]
Construído na encosta sul da colina Cabeça de Boi, em Nanquim, o túmulo original tinha forma de ferradura. A publicação do governo provincial de Fujian o descreve como cenotáfio que guardaria roupas e adereços de cabeça de Zheng; não há confirmação arqueológica apresentada para esse conteúdo. Em 1985, o monumento foi reconstruído segundo o estilo muçulmano.[129]
Fontes históricas e controvérsias
[editar | editar código]Registros das expedições
[editar | editar código]A reconstituição das expedições exige o cruzamento de registros da corte, relatos de participantes, inscrições, mapas e textos posteriores, entre eles os Ming Shilu, anais oficiais de cada reinado que preservam ordens, nomeações e recepções de enviados.[nota 31] Eles não formam, contudo, um diário contínuo das viagens e precisam ser comparados com testemunhos produzidos a bordo.[130][131]
Além dos anais oficiais, três obras escritas por participantes constituem fontes fundamentais sobre as viagens: o Yingya Shenglan (Panorama geral das costas oceânicas), do intérprete Ma Huan; o Xingcha Shenglan (星槎勝覽, relato da "jangada estrelada"), de Fei Xin; e o Xiyang Fanguo Zhi (西洋番國志, registro dos países estrangeiros do Oceano Ocidental), de Gong Zhen, secretário na sétima expedição.[132] Ma descreveu com especial detalhe os portos, produtos, religiões e costumes que observou, e sua obra permanece o relato preservado mais extenso.[133]
Os três textos não são testemunhos inteiramente independentes: seus autores aproveitaram materiais anteriores e há passagens compartilhadas entre as obras.[nota 32] Ainda assim, quando lidos em conjunto com as inscrições levantadas pela frota, os mapas e os registros da corte, eles permitem confrontar a narrativa oficial com observações de participantes.[134]

O próprio Zheng escreveu sobre as viagens:
Percorremos mais de 100 mil li por imensas extensões de água e contemplamos no oceano ondas enormes, como montanhas que se erguiam ao céu. Vimos regiões bárbaras distantes, escondidas na transparência azulada dos vapores luminosos, enquanto nossas velas, desfraldadas bem alto como nuvens, de dia e de noite seguiam seu curso tão depressa quanto uma estrela, atravessando aquelas ondas bravias como se caminhássemos por uma via pública.[nota 33][135]
Navios e controvérsia sobre suas dimensões
[editar | editar código]Sem inventários contemporâneos que revelem todos os tipos e tamanhos da frota, a classificação mais conhecida vem do romance Sanbao Taijian Xia Xiyang Ji Tongsu Yanyi, de Luo Maodeng, publicado em 1597, quase dois séculos depois da primeira viagem. A obra descreve nove navios do tesouro de nove mastros, além de navios para cavalos, abastecimento, transporte e guerra, com cinco a oito mastros. Pela conversão tradicional do zhang, essas embarcações teriam entre 50 e 127 metros de comprimento, mas os números pertencem a uma narrativa tardia, e não a um registro técnico da frota.[nota 34][136][137][138]
Os relatos de Marco Polo e Ibne Batuta mostram que grandes navios asiáticos de muitos mastros, capazes de transportar centenas de pessoas, já eram conhecidos antes das viagens de Zheng.[139] Niccolò Da Conti, seu contemporâneo, descreveu no Sudeste Asiático embarcações de cinco mastros com capacidade de cerca de 2 mil botte, estimada em 1,3 mil toneladas de arqueação.[nota 35][140] O navio observado pode ter sido um jong birmanês ou indonésio, e o relato não demonstra que embarcações iguais integrassem a frota de Zheng.[141]
Pela conversão que produz comprimentos entre 127 e 137 metros, os maiores navios do tesouro teriam quase o dobro do comprimento do HMS Victory e do Vasa, ambos com cerca de 69 metros. Não há paralelo seguro para embarcações de madeira com mais de 126 metros, pois dimensões semelhantes só aparecem de maneira comprovada em navios a vapor com casco de ferro do século XIX. Por isso, muitos pesquisadores calculam comprimentos mais modestos, entre 61 e 76 metros, e uma estimativa recente situa a maior embarcação em cerca de 70 metros. As fontes disponíveis ainda não permitem encerrar a controvérsia.[142][143]
Evidência documental e estimativas
[editar | editar código]A imagem popular de uma frota formada por navios extraordinariamente grandes foi alimentada por fontes de valor muito desigual. O romance de Luo Maodeng, por exemplo, descreve embarcações construídas com auxílio sobrenatural e não serve como documento histórico.[144][145] As estimativas mais elevadas para a frota de 1405, algumas das quais chegam a 183 metros, também dependem de um texto escrito cerca de três séculos depois das viagens e são rejeitadas por especialistas em arquitetura naval.[146][147]
Xin Yuanou propôs que os navios de 44 zhang fossem embarcações fluviais usadas pelo imperador e por funcionários no Yangtzé, enquanto o núcleo oceânico da frota seria formado por navios de seis mastros e 2 mil liao, com arqueação estimada em quinhentas toneladas e deslocamento próximo de oitocentas.[nota 36][148][149] Uma inscrição funerária preparada em 1434 para Hong Bao confirma que a frota empregava “grandes navios de 5 mil liao”, mas não registra comprimento, largura ou calado e, por isso, não comprova as dimensões gigantescas atribuídas a essas embarcações.[150]
A conversão do zhang é uma das principais dificuldades do debate. Registros Ming atribuíram a navios europeus das companhias das Índias Orientais e a galeãos medidas que chegariam a 180 metros pela conversão tradicional, um resultado incompatível com as embarcações conhecidas.[151] Comparações com um navio e um canhão neerlandeses indicam que, nesses registros, cada zhang poderia equivaler a apenas 1,5 ou 1,6 metro; nessa escala, um navio de 44 zhang teria cerca de 70 metros, e não mais de 140.[152] A medida, contudo, não era uniforme: construções de Quanzhou indicam valores entre 2,5 e 2,56 metros, enquanto outra interpretação reduz o zhang Ming à metade da unidade moderna.[153][154]
Escavações dos estaleiros
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Escavações realizadas em 2003 e 2004 no Estaleiro dos Navios do Tesouro, em Nanquim, revelaram três das treze bacias que teriam existido no período Ming. A maior mede 421 metros de comprimento e até 41 metros de largura, mas os vestígios das estruturas de construção naval ocupam apenas uma faixa de dez metros. A disposição dessas armações indica que os maiores navios ali construídos provavelmente tinham menos de 75 metros. Também foram encontrados postes de leme de teca com dez a onze metros, inicialmente apresentados como prova de embarcações gigantescas. Essa interpretação foi posteriormente contestada, pois juncos tradicionais com apenas 31 metros também podiam possuir postes desse tamanho; isoladamente, portanto, os achados não permitem determinar as dimensões dos navios de Zheng.[155]
Historiografia e debates
[editar | editar código]Depois de permanecerem por muito tempo à margem das histórias oficiais chinesas,[nota 37] as viagens tornaram-se mais conhecidas na China e fora dela quando Liang Qichao publicou, em 1904, a Biografia de Zheng He, o grande navegador de nossa terra.[156][7]

Nas décadas posteriores à última viagem, funcionários imperiais diminuíram o espaço de Zheng e das expedições nas histórias dos reinados e da dinastia. Os anais oficiais de Yongle e Xuande continham informações incompletas e até erradas, enquanto outras publicações oficiais silenciavam sobre o assunto.[7] Alguns autores interpretaram essas lacunas como prova de uma conspiração para apagar as viagens. A evidência é mais limitada: o cronista Yan Congjian relatou que altos funcionários ordenaram a destruição de arquivos governamentais quando o imperador Chenghua pediu informações para avaliar uma nova expedição. Siu cita o episódio como resistência burocrática à retomada das frotas, enquanto Hui também aponta dispersão entre repartições e o embaraço causado por viagens contrárias às instruções de Hongwu. Assim, há fonte para uma destruição deliberada específica, mas não para supor que todos os registros tenham sido eliminados por um plano único.[6][7]
Na década de 1950, historiadores como John Fairbank e Joseph Needham difundiram a ideia de que a China abandonou o mar depois das viagens em razão da política Haijin e se isolou dos avanços tecnológicos europeus.[nota 38] O comércio marítimo chinês, porém, não cessou por completo: navios chineses atuaram no Sudeste Asiático até o século XIX, e as trocas com a Índia e a África Oriental prosseguiram muito depois de Zheng. Autores ligados ao revisionismo histórico, como Jack Goldstone, contestaram explicações que tratavam a divergência entre Europa e Ásia como resultado inevitável de uma incapacidade tecnológica chinesa.[157] A proibição marítima Haijin foi adotada por Hongwu muito antes das viagens; a aplicação variou, e as frotas oficiais de Yongle coexistiram com restrições ao comércio privado. Em 1567, o governo autorizou comércio privado regulamentado por um porto de Fujian, mas manteve proibido o comércio direto com o Japão, de modo que não se tratou de uma revogação completa e irrestrita.[158] As restrições desviaram parte das trocas para o contrabando, e estudos quantitativos associam sua aplicação mais rígida entre 1550 e 1567 ao aumento dos ataques piratas.[159] Os wokou, chamados de “piratas japoneses” nos documentos Ming, eram redes marítimas multiétnicas que no século XVI incluíam numerosos participantes chineses. Por isso, atribuir a crise apenas ao abandono da marinha imperial e dos estaleiros de Nanquim simplifica uma relação que também envolveu repressão comercial, contrabando e disputas por prata.[6][160][161][162]
Richard von Glahn, professor de história chinesa da Universidade da Califórnia em Los Angeles, criticou narrativas que se concentram na oportunidade perdida e constroem hipóteses contrafactuais sobre fracassos chineses.[nota 39] Para Glahn, Zheng reorganizou as relações marítimas asiáticas, a ponto de as viagens e seus efeitos dominarem a história naval regional do século XV.[163]
Hipótese de 1421
[editar | editar código]No livro 1421: O Ano em que a China Descobriu o Mundo, Gavin Menzies atribuiu a frotas chinesas viagens pela África Ocidental, Américas, Groenlândia, Islândia, Antártida e Austrália. Sua hipótese incluiu uma chegada ao território do atual Brasil antes dos europeus. Historiadores rejeitaram o argumento por seus erros factuais, uso seletivo de fontes e falta de provas para viagens chinesas além do oceano Índico.[164]
Consequências e legado
[editar | editar código]Consequências na China Ming e no oceano Índico
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Durante as três décadas das expedições, a intervenção Ming alterou relações diplomáticas e comerciais em diferentes partes do oceano Índico. O transporte de enviados, a concessão de títulos e selos, a abertura de intercâmbios patrocinados pela corte e as ações militares ligaram portos da China, do Sudeste Asiático, do sul da Ásia, da Arábia e da costa suaíli a uma rede de alcance incomum, embora as grandes expedições não tivessem continuidade depois de 1433.[4][96]
Os investimentos navais Ming caíram depressa depois das viagens, num período em que a pressão dos mongóis remanescentes da dinastia Yuan do Norte aumentava na fronteira e a transferência da capital para Pequim aproximava a corte da ameaça. Com grandes despesas, a China organizava campanhas terrestres contra os mongóis, o que disputava recursos e atenção política com as expedições navais. Em 1449, a cavalaria mongol emboscou a campanha comandada pelo próprio imperador Zhengtong na fortaleza de Tumu, a menos de um dia de marcha das muralhas da capital. O exército chinês foi destruído e o imperador, capturado.[nota 40] A batalha confirmou o perigo vindo do norte e abriu uma crise política. Quando os mongóis libertaram Zhengtong, seu meio-irmão já ocupara o trono e proclamara a era Jingtai. A estabilidade só voltou em 1457, com a restauração do soberano anterior. De volta ao poder, ele abandonou as campanhas terrestres anuais e iniciou a ampliação dispendiosa da Muralha da China. Isso não significa, contudo, que o tesouro simplesmente tenha ficado sem verba. Uma análise fiscal recente situa o encerramento na disputa entre o palácio, que financiava projetos conduzidos por eunucos, e a burocracia civil, que buscava proteger receitas destinadas à administração, às obras públicas e ao socorro de desastres. A crise de 1449 tornou a defesa terrestre um argumento adicional contra a retomada das grandes frotas.[6]
Durante as décadas seguintes, missões do Sudeste Asiático continuaram chegando à China e, em certos lugares, tornaram-se tão frequentes que a corte impôs limites. A História dos Ming conserva decretos que proibiam Java, Champa e Sião de enviar emissários mais de uma vez a cada três anos.[9]
Culto e memória no Sudeste Asiático
[editar | editar código]Entre a diáspora chinesa do Sudeste Asiático, Zheng tornou-se alvo de veneração popular,[nota 41][8] enquanto tripulantes que ficaram em alguns portos também receberam culto,[nota 42] como "Poontaokong", no arquipélago de Sulu.[9] Os templos dedicados a Zheng, por vezes chamados pelo nome Sam Po, são próprios das comunidades chinesas ultramarinas. A exceção é um templo de Hongjian erguido inicialmente por um sino-filipino que regressou à China no período Ming. Depois que a Revolução Cultural destruiu o edifício, outro sino-filipino o reconstruiu.[9]
Malaca e tradições posteriores
[editar | editar código]A memória de Zheng integrou-se ao patrimônio da comunidade chinesa de Malaca, embora nem todo monumento dessa tradição lhe seja dedicado. O Cheng Hoon Teng, do século XVII, é o templo chinês mais antigo da cidade e foi dedicado a Guanyin. No domínio colonial neerlandês, o dirigente do templo era nomeado chefe da comunidade chinesa.[9]
Após a chegada de Zheng, o sultão e a sultana de Malaca visitaram a China à frente de mais de 540 súditos e levaram muitos tributos.[165] Uma tradição dos anais malaios, compilados posteriormente e sem confirmação nos registros Ming, conta que o sultão Mansur Xá, cujo reinado foi de 1459 a 1477, pediu ao imperador a mão de uma filha imperial e recebeu em 1459 uma princesa chamada Hang Li Po, ou Hang Liu. Na mesma narrativa, ela chegou com quinhentos jovens de posição elevada e algumas centenas de criadas, instalados depois em Bukit Cina; casamentos com habitantes locais teriam originado uma comunidade Peranakan. Historiadores têm tratado Hang Li Po como personagem lendária. Tan Ta Sen considera possível que a tradição conserve um acontecimento histórico e propõe que ela pudesse ser uma servidora do palácio, mas apresenta isso expressamente como hipótese pessoal; portanto, nem o casamento imperial nem a origem dos peranakan podem ser afirmados como fatos documentados.[166] Os peranakan ainda empregam formas especiais de tratamento, Baba para os homens e Nyonya para as mulheres.[nota 43]
Indonésia
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Comunidades sino-indonésias ergueram templos dedicados a Zheng em Jacarta, Cirebon, Surabaia e Semarang.[9]
O dirigente e escritor muçulmano indonésio Hamka atribuiu a Zheng, em 1961, uma participação na difusão do islã na Indonésia.[167] A interpretação de que tripulantes chineses muçulmanos formaram comunidades em Palimbão, Java, na Península Malaia e nas Filipinas permanece discutida, e as provas variam de um porto a outro.[168]
Usos modernos da imagem de Zheng He
[editar | editar código]Ao longo do século XX, Zheng passou a ocupar lugar destacado em narrativas chinesas sobre a história marítima, e comemorações públicas passaram a apresentá-lo com frequência como navegador e emissário pacífico. Essa imagem, porém, seleciona uma parte do registro e pode deixar em segundo plano o comércio dirigido pela corte, a imposição de relações tributárias e as intervenções militares.[96][8]
No século XXI, sua memória também foi incorporada a discursos de cooperação marítima e a interpretações da Iniciativa do Cinturão e Rota, inclusive nas relações entre a China e a África. Ying-Kit Chan analisou esse uso como uma narrativa anti-imperialista que contrasta as viagens Ming com o colonialismo europeu.[nota 44] Trata-se de uma apropriação contemporânea da figura histórica, e não de prova direta sobre as intenções da corte do século XV.[169]
Vestígios e patrimônio material
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Escavações em Ormuz identificaram cerâmicas chinesas e outros objetos compatíveis com o período das viagens; interpretados ao lado das fontes escritas, esses achados arqueológicos ajudam a reconstruir a posição do porto nas redes comerciais do início do século XV, sem permitir que todo objeto chinês seja atribuído diretamente a Zheng.[nota 45][170]
- Depois do regresso da primeira viagem ao Ocidente, em 1407, Zheng construiu em Nanquim o Palácio de Tianfei (天妃宫, Tiānfēigōng), templo dedicado a Mazu.[171]
- A "Escritura de Contato e Intercâmbio com o Exterior" (通番事跡), também chamada estela da escritura de Tongfan, fica no Palácio de Tianfei de Liuhe, em Taicang, ponto de partida das expedições. A peça submergiu e se perdeu, mas foi reconstruída.[172]
- Antes da última viagem, Zheng e seus companheiros reconstruíram outro Palácio de Tianfei em Nanshan, no condado de Changle, Fujian. Ali levantaram a estela "Registro da manifestação e do poder de Tianfei" (天妃靈應之記, Tiānfēi Líng Yīng zhī Jì), que narra as expedições anteriores.[173]
- A Inscrição trilíngue de Galle, encontrada em 1911 na cidade de Galle, Seri Lanca, está no Museu Nacional de Colombo. Seus textos estão em chinês, tâmil e persa. A inscrição louva Buda e enumera doações da frota ao templo Tenavarai Nayanar, em Tondeswaram, frequentado por hindus e budistas.[174][175][176]
- Em Nanquim, além do cenotáfio de Zheng, foi escavada a tumba de Hong Bao, auxiliar de Zheng.[150]
- Levantamentos perto da Ilha Dongsha registraram sete grandes naufrágios, posteriormente associados à frota de Zheng e descritos como embarcações dos tipos shachuan (沙船), fuchuan (福船) e zhanzuochuan (戰座船). A atribuição direta à frota, porém, não foi demonstrada de forma conclusiva.[177][178]
Homenagens
[editar | editar código]Há um monumento a Zheng em Salalá, em Omã.[179]
Na China, 11 de julho é celebrado como data marítima nacional, associada à partida da primeira viagem: na China continental, recebe o nome Dia Marítimo da China (中国航海日, Zhōngguó Hánghǎi Rì); em Taiwan, é o Dia da Navegação (航海節).[180][181]
A fragata de mísseis taiwanesa ROCS Cheng Ho recebeu seu nome, enquanto um iate adquirido pela Marinha dos Estados Unidos já trazia do proprietário anterior o nome Cheng Ho, mantido na designação USS Cheng Ho (IX-52); a relação oficial de embarcações presentes em Pearl Harbor inclui o navio em 7 de dezembro de 1941.[182][183]
O Zheng He (AX-81), da Marinha do Exército de Libertação Popular, é um navio-escola chinês.[nota 46] Em 1989, tornou-se a primeira embarcação da marinha chinesa a visitar os Estados Unidos. Em 2012, realizou a primeira circum-navegação do globo por um único navio da marinha chinesa.[184][185]
O conceito da missão que mais tarde recebeu o nome Tianwen-2 aparecia em estudos de 2020 como ZhengHe, em homenagem ao navegador.[186] A sonda foi lançada em 29 de maio de 2025. Depois de cerca de quatrocentos dias de viagem, realizou o encontro orbital com o asteroide próximo da Terra Kamoʻoalewa, ou 2016 HO3, chegou a cerca de vinte quilômetros dele e iniciou as observações científicas em julho de 2026. A missão prevê recolher amostras do asteroide e entregar a cápsula de retorno à Terra no fim de 2027; o módulo principal deverá então prosseguir até o cometa do cinturão principal 311P/PANSTARRS, num programa de cerca de uma década.[nota 47][187][188][189]
O monte submarino Zheng He, no mar da Arábia, também homenageia o explorador[nota 48] e fica a sudoeste da ilha de Socotorá, nas coordenadas 11° 44′ 18″ N, 55° 08′ 18″ L.[190]
Presença na cultura popular
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As histórias da frota inspiraram romances sobre as viagens, entre eles o Romance do Eunuco das Três Joias, de 1597.[191][192]
No romance de ficção científica A Deepness in the Sky, de Vernor Vinge, publicado em 1999, uma sociedade interestelar de comerciantes humanos recebe o nome Qeng Ho em homenagem ao almirante.[193] Uma expedição fictícia atribuída a Zheng ocupa parte central do romance The Map Thief, de Heather Terrell, lançado em 2008.[194] Produzida para recordar o sexto centenário das viagens, a série Zheng He Xia Xiyang é catalogada pela Televisão Central da China como obra de 2008 e foi exibida pela CCTV-8 em 2009, com Gallen Lo no papel-título.[195][196] Zheng é mencionado no enredo do jogo de tiro em primeira pessoa Far Cry 3, lançado pela Ubisoft em 2012.[197] O episódio final da primeira temporada de Star Trek: Picard mostra uma nave chamada USS Zheng He.[198] No mundo real, uma embarcação adquirida pela Marinha dos Estados Unidos para serviço de piquete na Segunda Guerra Mundial já trazia do proprietário anterior o nome Cheng Ho.[182]
Em 2015, a Emotion Media Factory criou o espetáculo multimídia "Zheng He is coming" para o parque Romon U-Park, em Ningbo. A produção foi finalista do Brass Rings Awards da Associação Internacional de Parques de Diversões e Atrações.[199][200]
Ver também
[editar | editar código]- Viagens do tesouro Ming, as sete expedições marítimas comandadas por Zheng He
- Exploração chinesa, viagens chinesas por terra e por mar fora do território imperial
- Navio do tesouro, tipo de grande embarcação atribuída à frota Ming
- Dinastia Ming, dinastia sob a qual Zheng serviu
- Rota da Seda, rede continental e marítima na qual se inseriram os intercâmbios sino-asiáticos
- Mazu, deusa venerada por Zheng e pelos marinheiros da frota
- Eunuco, condição imposta a Zheng após sua captura
- Oceano Índico, principal espaço marítimo percorrido pelas expedições
- Navegação marítima, conjunto de técnicas usadas para orientar as expedições
- Descobrimentos portugueses, expedições oceânicas europeias iniciadas algumas décadas depois
Notas e referências
Notas
- ↑ Os hui são um grupo étnico chinês historicamente ligado ao islã. Falar em etnia hui não significa que todos tenham a mesma origem familiar ou falem uma língua diferente do chinês.
- ↑ Hajji é um tratamento honorífico dado a quem realizou a peregrinação a Meca. Além do sentido religioso, o título podia trazer prestígio social à pessoa e à família.
- ↑ O festival segue o calendário lunar chinês. Por isso, sua data pode cair em maio ou junho no calendário usado hoje.
- ↑ Na corte imperial chinesa, meninos e homens castrados podiam ser transformados em eunucos do palácio. Alguns permaneceram em funções domésticas; outros, como Zheng, chegaram a cargos militares e administrativos de grande poder. “Príncipe de Yan” era um título da família imperial: Zhu Di governava uma região e comandava forças próprias, mas ainda estava sujeito ao imperador.
- ↑ O chi era uma medida tradicional cujo tamanho variou conforme a época e o lugar. Para este relato, os estudos estimam algo entre 26,5 e 30 centímetros por chi; por isso, a conversão da altura de Zheng não é exata. Dreyer 2007, p. 19
- ↑ O nome Jingnan costuma ser traduzido como “pacificação das dificuldades”. Apesar desse nome oficial, tratou-se de uma guerra civil pelo trono.
- ↑ Esses “feudatários” eram parentes do imperador que controlavam territórios, rendas e tropas. Reduzir seus poderes também diminuía a possibilidade de novas rebeliões.
- ↑ Taijian era um alto posto ocupado por eunucos do palácio. “Grande diretor” é uma tradução aproximada: o cargo não correspondia exatamente a uma profissão moderna com esse nome.
- ↑ Uma entrada do Taizong Shilu de 27 de fevereiro de 1424 diz que Zheng levou o selo porque o anterior fora destruído em um incêndio. O Xuanzong Shilu, em registro de 17 de setembro de 1425, atribui a entrega de um selo a Zhang Funama, também após a destruição do anterior pelo fogo. Os compiladores posteriores da História dos Ming parecem ter reunido os dois relatos. Escreveram que a sucessão de Shi Jisun foi aprovada em 1424 e que um selo novo chegou em 1425, o que dá a entender que apenas um selo se perdera. Dreyer 2007, p. 96
- ↑ O selo e a carta mostravam que a corte Ming reconhecia oficialmente a autoridade de Shi Jisun. Não eram apenas presentes cerimoniais.
- ↑ A Diretoria de Cerimônias era um órgão do palácio administrado por eunucos. O nome pode sugerir apenas rituais, mas a repartição também lidava com ordens e assuntos internos da corte.
- ↑ O homem, cujo nome não foi conservado, era diretor de departamento do Ministério das Obras. Fora a Nanquim para supervisionar reformas em prédios públicos e recompensar trabalhadores especializados. Dreyer 2007, p. 141
- ↑ Aqui, “ocidental” significa “a oeste da China”. O nome não se refere ao oceano Atlântico nem ao Ocidente europeu.
- ↑ Tianfei significa “Consorte Celestial” e era um dos títulos de Mazu. A mesma divindade recebeu outros títulos ao longo do tempo, por isso as fontes podem usar nomes diferentes.
- ↑ O título Huang Ming Zuxun pode ser traduzido como “Instruções Ancestrais do Augusto Ming”: era um conjunto de orientações deixadas pelo fundador aos sucessores, não uma constituição moderna. No sistema tributário, governantes estrangeiros enviavam representantes e presentes à corte chinesa; em troca, recebiam reconhecimento, presentes e oportunidades de comércio. “Tributo” aqui não era simplesmente um imposto cobrado todos os anos.
- ↑ “Povo Tang” era uma maneira de comunidades chinesas no exterior se identificarem. Não quer dizer que essas pessoas tivessem vivido durante a antiga dinastia Tang, encerrada séculos antes.
- ↑ Esses intérpretes não serviam apenas para conversas informais. Eles traduziam mensagens, acompanhavam cerimônias diplomáticas e ajudavam a registrar informações sobre os portos visitados.
- ↑ Um destacamento era um grupo separado da frota principal para cumprir uma rota ou missão própria. Assim, dois relatos da mesma viagem podem descrever lugares diferentes sem que um deles esteja necessariamente errado.
- ↑ “Credenciais” eram documentos que provavam que o portador falava em nome do imperador. Sem elas, um enviado não tinha a mesma autoridade diplomática.
- ↑ O qilin é um ser auspicioso da tradição chinesa. Ao identificar a girafa com ele, a corte podia interpretar o animal desconhecido como um sinal de que o imperador governava com aprovação do Céu.
- ↑ Uma estela é uma placa de pedra erguida para conservar uma inscrição. Para os historiadores, ela pode funcionar como um documento, desde que sua data e seu contexto sejam examinados.
- ↑ “Império do Meio” é uma tradução tradicional de um nome chinês para a China. A expressão apresenta o país a partir de sua própria visão histórica, não como uma localização matemática no centro do planeta.
- ↑ A monção não é apenas uma chuva muito forte. É um sistema sazonal de ventos que muda de direção ao longo do ano e, por isso, pode favorecer a ida numa estação e a volta em outra.
- ↑ Wubei Zhi pode ser traduzido como “Tratado sobre Preparativos Militares”. Como a obra é posterior a Zheng, ela preserva materiais mais antigos, mas não é um diário produzido durante as viagens.
- ↑ Em estudos de manuscritos, “R” indica a frente da folha, chamada recto, e “V” indica o verso. Assim, 19V–20R localiza um trecho que atravessa a virada de uma folha.
- ↑ Os 24 pontos dividiam o horizonte em direções mais precisas do que apenas norte, sul, leste e oeste. Isso ajudava o piloto a registrar e repetir um rumo.
- ↑ Sondar a profundidade é medir quanto há de água sob o navio. A informação ajuda a evitar bancos rasos e também pode confirmar a aproximação de uma costa.
- ↑ O huozhang era o profissional que reunia diferentes informações para orientar a embarcação. Ele não “dirigia” sozinho o navio: dependia dos timoneiros e de outros tripulantes.
- ↑ O geng media um intervalo de navegação pelo tempo decorrido. Não correspondia a uma distância fixa como o quilômetro, pois a distância percorrida mudava conforme o vento, a corrente e a velocidade do navio.
- ↑ “Facção” aqui indica uma rede de pessoas com interesses e posições próximos. Não era um partido político organizado como os atuais, e nem todo eunuco ou funcionário letrado pensava da mesma maneira.
- ↑ Ming Shilu significa “Registros Verídicos dos Ming”. O nome não garante que cada passagem seja completa ou imparcial: os anais foram compilados pela corte a partir de documentos administrativos.
- ↑ Quando duas obras repetem a mesma fonte, a concordância entre elas não vale como duas confirmações separadas. Por isso, os historiadores procuram saber de onde cada autor tirou a informação.
- ↑ O li é uma medida chinesa de distância cujo valor mudou ao longo da história. Além disso, “100 mil” pode funcionar aqui como uma forma solene de dizer que a distância foi imensa, não como uma medição moderna precisa.
- ↑ O zhang era uma unidade tradicional de comprimento cujo valor variou ao longo do tempo. Essa variação torna discutível sua conversão para metros.
- ↑ O botte era uma medida veneziana de capacidade. Sua conversão em toneladas modernas é apenas aproximada.
- ↑ Liao aparece nas fontes como uma medida da capacidade do navio e não pode ser convertido de maneira simples e exata em toneladas modernas. Arqueação e deslocamento também medem coisas diferentes: a primeira se refere ao volume interno útil, enquanto o segundo corresponde ao peso total da embarcação.
- ↑ Historiografia é o estudo de como a história foi escrita e interpretada. Por isso, esta seção não pergunta apenas “o que aconteceu?”, mas também “como diferentes épocas contaram o que aconteceu?”.
- ↑ Haijin significa “proibição marítima”. As regras restringiam sobretudo o comércio e as viagens privadas; não significavam que toda atividade chinesa no mar tivesse parado de uma vez.
- ↑ Uma hipótese contrafactual pergunta o que poderia ter acontecido se o passado tivesse sido diferente. Ela pode ajudar a pensar sobre causas, mas não serve como prova do que realmente ocorreu.
- ↑ A captura de um imperador vivo era uma crise excepcional: ameaçava a sucessão, a autoridade da corte e a defesa da capital ao mesmo tempo.
- ↑ “Diáspora chinesa” reúne comunidades de origem chinesa que vivem fora da China. Essas comunidades têm histórias locais diferentes e não formam um único grupo uniforme.
- ↑ Nesse contexto, “culto” significa veneração religiosa ou comunitária. Não quer dizer apenas admiração por uma personalidade histórica.
- ↑ Peranakan é um nome usado para comunidades formadas no Sudeste Asiático por descendentes de imigrantes, sobretudo chineses, e populações locais. O termo envolve cultura, língua e história familiar, não apenas lugar de nascimento.
- ↑ Chamar a narrativa de “anti-imperialista” descreve como ela é construída no presente: a China aparece como parceira, em contraste com impérios coloniais europeus. Isso não resolve, por si só, o debate sobre a força empregada pela frota Ming.
- ↑ Na arqueologia, o contexto do achado importa tanto quanto o objeto. Uma cerâmica chinesa pode ter chegado por comerciantes e mudado de dono várias vezes, sem ter sido transportada pela frota de Zheng.
- ↑ Um navio-escola é usado para treinar cadetes e tripulantes em condições reais de navegação. Ele pode visitar outros países como parte dessa formação e de missões diplomáticas.
- ↑ Numa missão de retorno de amostra, a sonda recolhe material de outro corpo celeste e traz parte dele à Terra para análise em laboratório.
- ↑ Um monte submarino é uma elevação do fundo do oceano que não chega à superfície. Se emergisse acima da água, poderia formar uma ilha.
Referências
- ↑ Dreyer 2007, p. 11
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Bibliografia
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Leitura adicional
[editar | editar código]- Pinto, Paulo Antônio Pereira (2005). «China: a ascensão pacífica e as comemorações dos 600 anos da viagem de Zheng He ao Sudeste Asiático». Meridiano 47. 6 (62): 5–7. Consultado em 3 de outubro de 2026
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- Viviano, Frank (julho de 2005). «China's Great Armada». National Geographic (em inglês). 208 (1): 28–53
Ligações externas
[editar | editar código]- "As sete viagens de Zheng He", World History Encyclopedia, em português
- "China: a ascensão pacífica e as comemorações dos 600 anos da viagem de Zheng He ao Sudeste Asiático", Universidade de Brasília, em português
- "Rede do comércio chinês da dinastia Ming, principalmente as sete viagens de Zheng He", Universidade de Lisboa, em português
- "A dinastia Ming e as viagens de Zheng He", Revista da Armada, Marinha Portuguesa, em português
- "As viagens do almirante Zheng He", The Ocean Foundation, em português
- "As sete viagens da Frota do Tesouro da China da dinastia Ming", Poder Naval, em português
- "As viagens de Zheng He e a expansão marítima chinesa", Revista Marítima Brasileira, em português
- "O mar e as relações internacionais", Academia de Marinha, em português
- "Zheng He e os mares do Sul", Macau Data, em português
- "1421: o ano em que a China descobriu o mundo", recensão crítica no repositório da Universidade de Lisboa, em português
- "Zheng He, o explorador chinês", Revista Macau, em português
- "Seminário sobre ciência náutica e técnicas de navegação dos séculos XV e XVI", Revista de Cultura, Instituto Cultural de Macau, em português
- "O junco chinês: do esboço de uma cronologia à cronologia de um esboço", Revista de Cultura, Instituto Cultural de Macau, em português
- Southeast Asia in the Ming Shi-lu, banco de traduções dos anais Ming mantido pela NUS Press, em inglês
- "The Seven Voyages of Zheng He", World History Encyclopedia, em inglês
- "Zheng He, the Chinese Muslim Admiral", Muslim Heritage, em inglês
- "Zheng He 600th Anniversary", China Radio International, em inglês, arquivado
- "Swimming Dragons", programa da BBC Radio 4, em inglês
- "The Voyages of Zheng He", Time, em inglês, arquivado
- "Virtual Exhibition", Elibraryhub, em inglês, arquivado
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- Kahn, Joseph (2005). «China Has an Ancient Mariner to Tell You About». The New York Times (em inglês)
- Boletim de pesquisas acadêmicas sobre as viagens de Zheng He, Universidade Nacional Cheng Kung, em chinês, arquivado

