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O Tempo e o Vento

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 Nota: Para outros significados, veja O Tempo e o Vento (desambiguação).
O Tempo e o Vento
Érico Veríssimo, em data desconhecida. O título original era O Vento e o Tempo, invertido antes do lançamento.[1]

O Continente (1949) — vol. 1 e 2
O Retrato (1951) — vol. 1 e 2
O Arquipélago (1961–1962) — vol. 1, 2 e 3
Autor(es)Érico Veríssimo
GêneroFicção histórica
Romance de 30
Saga familiar
Idioma originalPortuguês
País de origem Brasil
EditoraBrasil Editora Globo (1949–2004)
Companhia das Letras (2004–presente)[2]
Publicado entre1949–1962

O Tempo e o Vento é uma trilogia de romances históricos do escritor gaúcho Érico Veríssimo, publicada entre 1949 e 1962, e considerada por muitos a maior obra da literatura brasileira do século XX.[3] Composta por O Continente (1949),[4] O Retrato (1951) e O Arquipélago (1961–1962), a trilogia narra dois séculos de história do Rio Grande do Sul, da fundação das Missões Jesuíticas e da chegada dos primeiros colonos ao "Continente de São Pedro" em 1745[5] até o fim do Estado Novo em 1945, por meio da saga de múltiplas gerações das famílias Terra, Cambará e Amaral na cidade fictícia de Santa Fé.

Ao longo de sete volumes e mais de três mil páginas, Érico constrói um painel épico que abrange guerras, revoluções, miscigenação, transformações políticas e a formação de uma identidade cultural. Para Flávio Loureiro Chaves, a obra deu ao romance histórico brasileiro "a chave da sua resolução formal" e assinala "um dos pontos fortes do nosso diálogo com a literatura ocidental".[3] Bordini e Zilberman a definem como um "romance fundacional" que realizou o que a literatura brasileira tentava há muito: mostrar a composição da nação nos âmbitos social, étnico e econômico.[5]

A trilogia exerceu influência reconhecida sobre escritores de toda a América Latina. Gabriel García Márquez, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1982, declarou que O Tempo e o Vento foi um dos três romances que estudou para escrever Cem Anos de Solidão, e que a cidade fictícia de Macondo foi inspirada em Santa Fé.[6][7]

Contexto e origens

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A ideia de O Tempo e o Vento nasceu muito antes de sua escrita. Em 1939, Érico Veríssimo já registrava em suas notas o desejo de criar um "massudo romance cíclico" sobre a história do Rio Grande do Sul, então com o título provisório de Caravana.[8] O projeto foi interrompido quando a iminência da Segunda Guerra Mundial o levou a escrever primeiro Saga (1940), romance sobre um pacifista gaúcho diante dos totalitarismos europeus. Só em 1947 Érico retomaria o projeto original, e a escrita de O Continente, primeiro volume da trilogia, duraria dois anos.[8] No total, o processo de escrita se estenderia de 1947 até 1962, quando o último volume de O Arquipélago foi publicado, quinze anos depois do início.[9]

O projeto exigiu uma pesquisa histórica de fôlego. Érico mergulhou nos registros das Missões Jesuíticas, nas crônicas das guerras do século XIX (Farroupilha, Paraguai, Federalista) e na documentação sobre a urbanização gaúcha no início do século XX. O resultado foi o que Bordini e Zilberman descrevem como o cumprimento de um projeto que os escritores brasileiros tentavam realizar há muito tempo: um romance histórico que mostrasse a composição da nação nos âmbitos social, étnico e econômico, e o papel de cada membro dentro dessa organização heterogênea do país.[9] A cidade fictícia de Santa Fé, palco de toda a saga, foi modelada com base em Cruz Alta, cidade natal de Érico, e em outras pequenas cidades da Campanha gaúcha.[10]

A obra foi também profundamente marcada pela história pessoal do autor. Érico narra em suas memórias (Solo de Clarineta) a separação traumática dos pais ainda em sua adolescência, num tempo em que a separação de casais era socialmente inaceitável, e como o pai abandonara a administração de sua farmácia para viver nos bares e bordéis de Cruz Alta. A mãe, que trabalhava como costureira para sustentar Érico e seu irmão Ênio, tornou-se a matriz das grandes personagens femininas da trilogia: Ana Terra, Bibiana, Maria Valéria, mulheres que sustentam famílias inteiras enquanto os homens se perdem em guerras, vícios e ambições.[11] Para a crítica Regina Zilberman, essa repetição matriarcal não é acidental: é o argumento central da obra, a demonstração de que, enquanto os homens se destroem, são as mulheres que garantem a continuidade da vida e da memória.[12]

A trilogia

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O Continente (2 volumes)[13]

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A primeira parte foi publicada em Porto Alegre em 1949 e narra a formação do Estado do Rio Grande do Sul através das famílias Terra, Cambará, Caré e Amaral, desde 1745 até a Revolução Federalista de 1893–1895. O ponto de partida é a chegada de uma mulher grávida nas Missões Jesuíticas. Esta mulher dará à luz Pedro Missioneiro, que, depois de presenciar as lutas de Sepé Tiaraju e ver os portugueses e espanhóis dizimarem as Missões, conhecerá Ana Terra, filha dos paulistas de Sorocaba, Henriqueta e Maneco Terra — este filho de um tropeiro (Juca Terra) que ficou encantado com o Rio Grande de São Pedro ao atravessá-lo para comerciar mulas na Colônia do Sacramento e que obteve uma sesmaria na região do Rio Pardo.

Ana Terra terá um filho com Pedro Missioneiro, chamado Pedro Terra. Logo que seu pai descobre a gravidez, manda os irmãos de Ana matarem o índio. Quando castelhanos invadem a fazenda, matam pai e irmão da moça e a violentam, mas ela consegue esconder o filho, a cunhada e a sobrinha. Partem para Santa Fé, onde se passará o resto da ação de O Tempo e o Vento. Lá Pedro Terra cresce e tem uma filha, Bibiana Terra, que se apaixonará pelo forasteiro capitão Rodrigo Cambará. Ana Terra e o capitão Rodrigo são considerados dois arquétipos da literatura brasileira.

A estrutura de O Continente é formalmente inovadora: sete grandes capítulos narrativos — cada um quase um romance autônomo — são intercalados pelos fragmentos de O Sobrado, narrativa ambientada no presente da história que funciona como moldura e clímax. Esse zigue-zague entre passado e presente, cuja amplitude vai diminuindo conforme o passado se aproxima do presente, confere ao volume um dinamismo formal notável para a literatura brasileira da época. Os dois volumes de O Continente são os mais lidos e conhecidos da trilogia; o sucesso do personagem Capitão Rodrigo levou a Editora Globo a publicar em separado o capítulo da obra a ele dedicado, Um Certo Capitão Rodrigo.

A história começa em 1745. Pe. Alonso, espanhol nascido em Pamplona e jesuíta nas missões de Sete Povos, procura entender um sonho perturbador que tem recorrentemente. Ao falar com seu confessor, traz à tona memórias dolorosas: o padre tivera uma juventude dissoluta, fora amante de uma mulher casada e planejara matar o marido dela. Contudo, quando se aproxima da casa com um punhal, descobre que o homem já havia morrido. Mesmo não tendo cometido o crime, fica com a consciência pesada, como se fosse culpado por intenção, e decide tornar-se padre missionário para se redimir. Guarda o punhal para nunca se esquecer do que havia passado.

Tranquilizado após conversar com o confessor, Pe. Alonso continua a viver sua vida quase idílica nas missões. Certo dia, chega uma índia grávida em trabalho de parto. Os jesuítas falham em salvar sua vida, mas seu filho nasce em perfeito estado. O menino, mestiço de índio e branco, é batizado como Pedro, e o padre se torna seu padrinho e educador. Pedro cresce excepcionalmente talentoso, mas tem frequentemente visões da Virgem Maria, que julga ser sua mãe morta.

A vida idílica das missões é então perturbada pelo Tratado de Madrid. As terras que antes pertenciam à Espanha passam para a Coroa Portuguesa, e o governo exige que todos os índios e jesuítas se transfiram para outras terras em poucos meses. Os índios convertidos se revoltam e criam milícias sob o comando de Sepé Tiaraju, mas acabam sucumbindo. Pedro prevê a morte de Tiaraju, que se concretiza. Quando as forças portuguesas estão prestes a invadir, os jesuítas e índios incendeiam as construções. Pedro toma para si o punhal do Pe. Alonso e desaparece com um cavalo. Reaparecerá mais tarde, adulto, em Ana Terra.

Ana Terra

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Ana Terra é filha de Maneco Terra e Henriqueta, colonos paulistas estabelecidos na região do Rio Pardo. Após o desastre que destrói sua família — a invasão castelhana que mata seu pai e irmão — ela parte sozinha com o filho Pedro, fruto de seu amor proibido pelo índio Pedro Missioneiro, e a cunhada e sobrinha sobreviventes, em busca de um novo começo em Santa Fé. É o capítulo que apresenta a matriarca de toda a linhagem Terra-Cambará e o mais emocionalmente denso de O Continente, construindo o arquétipo feminino que atravessará toda a trilogia: a mulher que suporta, resiste e sustenta enquanto o mundo ao seu redor desmorona.

Um Certo Capitão Rodrigo

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O capitão Rodrigo Cambará, aventureiro destemido, chega intempestivamente em Santa Fé, e faz, imediatamente, amigos e inimigos. Todos os habitantes do povoado antipatizam com o recém-chegado, especialmente Pedro Terra (filho de Ana Terra, pai de Juvenal e Bibiana) e o Cel. Ricardo Amaral Neto, rico descendente dos primeiros povoadores locais e mandachuva despótico. Este convoca Rodrigo e exige que ele se retire do povoado. Mas o capitão não aceita ordens e permanece, meio por gosto, meio por teimosia, hospedado na casa de Nicolau, pagando com os soldos que havia ganho em outras guerras.

Ao avistar, num dia de finados, Bibiana Terra visitando o túmulo da avó, o conquistador incorrigível fica apaixonado. Mas Bibiana herdara da avó uma desconfiança natural a todos os homens e estava sendo cortejada por Bento Amaral, filho do coronel, considerado por todos um bom partido. A situação culmina num duelo pela esgrima crioula entre Rodrigo e Bento. Rodrigo vence, mas Bento lança mão de um revólver escondido e o fere gravemente. Rodrigo é acolhido na casa de Pedro Terra e se recupera. Profundamente envergonhado com a atitude covarde do filho, o Cel. Amaral promete deixar Rodrigo em paz. Bibiana, impressionada pela coragem do capitão, aceita casar-se com ele.

Rodrigo abre uma venda própria junto com Juvenal Terra, mas seu gênio não se acomoda à pacata vida de vendeiro, e começa a beber, a jogar e a trair. Bibiana suporta estoicamente todas as dificuldades. Quando estoura a Revolução Farroupilha, o capitão parte para se juntar às tropas de Bento Gonçalves. Finalmente, volta a Santa Fé com um batalhão para tomar a cidade. É o primeiro a liderar o ataque ao casarão do Cel. Amaral e é mortalmente ferido, deixando Bibiana viúva.

O título faz uma referência óbvia à Guerra do Paraguai, que causou uma profunda decadência em Santa Fé, de alto custo humano e material. Mas também é uma referência à terrível situação entre nora e sogra que se instaurou no sobrado após a morte de Bolívar. Bibiana e Luzia já se detestavam antes, mas a morte do homem deixou uma incógnita no ar. Luzia se encontra muito doente, com um tumor, e com tempo de vida limitado. Carl Winter, o médico da família, define a situação como uma carreira entre as duas mulheres, apostando em quem sobreviverá e conseguirá o domínio completo da casa e do menino Licurgo. A relação do título com essa "guerra feminina" fica esclarecida em várias passagens. Por exemplo, Bibiana diz:

— Não. Como é que vou deixar essa mulher sozinha aqui? É capaz de fazer alguma barbaridade.[14]


E mais à frente:

— Pois causos como esse há muito. Se eu quisesse contar todos, a gente passava aqui a noite inteira. Birras, desaforos que ela me faz, indiretas, malvadezas fininhas... (...) Ficamos com nossa guerra miudinha, dia a dia, hora a hora...[15]


Ismália Caré

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"Ismália Caré" é a última das grandes narrativas inteiriças que compõem O Continente.[16] É o elo entre todas as outras narrativas que seguiam a história da família Terra-Cambará desde o século XVIII (A Fonte,[17] Ana Terra,[18] Um Certo Capitão Rodrigo,[19] A Teiniaguá[20] e A Guerra[21]) com O Sobrado, a grande narrativa fragmentada que envolve todas as outras ao longo de O Continente e que é o clímax da história.

Nela revemos várias personagens presentes nas narrativas anteriores, como Bibiana, Licurgo, Carl Winter, Florêncio e Bento Amaral. Santa Fé é elevada ao status de cidade. Luzia morreu, deixando a educação de Licurgo e o controle do Sobrado à sua odiada sogra, Bibiana. Licurgo já é um homem completamente formado, prestes a casar com sua prima Alice, filha de Florêncio. Por influência do amigo Toríbio Rezende, funda um clube republicano em Santa Fé e adere fervorosamente ao movimento abolicionista, libertando seus escravos: O convívio com Toríbio Rezende, a leitura dos artigos que Júlio de Castilhos publicava na imprensa atacando o império e fazendo a propaganda da abolição e da república — tudo isso tinha feito Licurgo Cambará um republicano e um abolicionista.[22] O título faz referência à amante que Licurgo tinha antes do casamento, e que era fonte de conflito com sua avó. Curiosamente, a personagem em si (apesar de mencionada a todo momento) só aparece em pessoa ao final da narrativa.[23]

O Sobrado

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Diferente de todos os outros longos trechos da obra, todos em ordem cronológica, a narrativa de O Sobrado (a mais recente de todas, quase ao fim do século XIX) é fragmentada e interposta entre as outras, com numerações. Assim, a narração total de O Continente é feita de forma muito dinâmica e moderna, num zigue-zague que vai do passado distante, em A Fonte, ao presente da narração em O Sobrado, com amplitude que vai diminuindo conforme o passado se torna cada vez mais próximo.

Nela sabemos o fim de várias personagens conhecidas, especialmente de Licurgo Cambará. Intendente de Santa Fé, é sitiado pelas forças dos maragatos, comandados pelos descendentes da família Amaral, com quem Licurgo tinha uma rixa antiga. Lá dentro, os membros da família e seus capangas passam graves necessidades de água, comida e cuidados médicos. A tensão é aumentada pelo fato de que a narrativa é fragmentada e interrompida por longos trechos que funcionam como flashbacks da história da família Terra-Cambará, adiando a solução continuamente.

A Teiniaguá

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A Teiniaguá acompanha Bolívar Cambará, filho do Capitão Rodrigo e de Bibiana, e sua obsessão pela índia Teiniaguá — figura ligada à lenda da Salamanca do Jarau, um dos mitos fundadores da tradição oral gaúcha. É o capítulo que mergulha mais fundo no universo mítico e folclórico rio-grandense, e onde Érico aproxima a narrativa realista do registro da lenda, criando uma tensão entre o histórico e o sobrenatural que não reaparece nos demais capítulos com a mesma intensidade.

O Retrato (2 volumes)

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A história se passa em Santa Fé no início do século XX, então iniciando timidamente seu processo de urbanização, ainda marcada pela cultura rural.

“Naquela tarde de princípios de novembro, o sueste que soprava sob os céus de Santa Fé punha inquietos os cata-ventos, as pandorgas, as nuvens e as gentes; fazia bater portas e janelas; arrebatava de cordas e cercas as roupas postas a secar nos quintais; erguia as saias das mulheres, desmanchava-lhes os cabelos; arremessava no ar o cisco e a poeira das ruas, dando à atmosfera uma certa aspereza e um agourento arrepio de fim de mundo.
Por volta das três horas, um funcionário da Prefeitura assomou à janela da repartição e olhou por um instante para as árvores agitadas da praça, exclamando: "Ooô, tempinho brabo!"
Num quintal próximo, recolhendo às tontas as roupas que o vento arrancara do coradouro e espalhara pelo chão, uma dona de casa resmungava: 'É para um vivente ficar fora do juízo!' (...)”

— O Tempo e o Vento/O Retrato

Toda a história é marcada pelo contraste entre o Dr. Rodrigo Cambará, homônimo do capitão, homem da cidade, e o Coronel Licurgo, seu pai, homem do campo. Como mediador desse conflito, aparece seu irmão Toríbio.

O próprio Dr. Rodrigo é um personagem marcado pelos contrastes. Formado em Medicina, adquiriu em Porto Alegre o gosto por uma vida sofisticada: ao chegar a Santa Fé, vestia ternos elegantes, trazia vinhos franceses e um gramofone e na mente projetos grandiosos. Mas frequentemente esse verniz se rompia e se revelava o típico macho gaúcho, com acessos de violência e de um incontido desejo sexual. O homem confiante que se julgava vai cedendo aos poucos o lugar para o homem amoral em que acaba se transformando. Érico explora esse contraste ao fazer recorrentes comparações entre o retrato pendurado nas paredes do Sobrado — que fixa o Dr. Rodrigo idealizado no seu apogeu — e o homem em que ele vai se transformando. A fonte deste contraste entre o retrato imutável e o homem se degradando é O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.

Os grandes acontecimentos do século chegam pelo telégrafo e pelos jornais, e pouco influem na vida das pessoas, a não ser como motivo de discussões políticas e filosóficas. Ao contrário de O Continente, onde os personagens são protagonistas da História, aqui eles são espectadores desinteressados.

O Arquipélago (3 volumes)

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A última parte da trilogia foi lançada onze anos após O Retrato, quando os meios literários já não mais esperavam a continuação de O Tempo e o Vento, devido à frágil saúde de Érico, convalescente de um ataque cardíaco.

Aqui, parte da ação transcorre no Rio de Janeiro, então a capital do país, com o Dr. Rodrigo Cambará eleito deputado federal. Os personagens deixam de ser espectadores e passam a participar diretamente dos eventos nacionais, contracenam com figuras históricas reais como Getúlio Vargas, Osvaldo Aranha e Luís Carlos Prestes, o que confere à história uma dinâmica especial. No seio da família Cambará, desenrolam-se as contradições de uma época marcada por uma radical revolução de costumes, sob a influência do cinema americano. Na família e suas relações, há desde comunistas a oportunistas.

No meio deles, assumindo uma postura crítica e não engajada, aparece Floriano, alter ego do próprio Érico. O autor inova ainda ao introduzir um capítulo narrado pela personagem feminina Sílvia, que apresenta os demais personagens de O Arquipélago sob um ângulo diferente.

Personagens

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Principais

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PersonagemFamíliaVolume(s)Descrição
Pe. Alonso—O Continente Jesuíta espanhol nascido em Pamplona, padrinho e educador de Pedro Missioneiro nas Missões de Sete Povos. Seu punhal de prata — símbolo de uma culpa carregada por intenção, não por ato — passa de geração em geração como objeto de memória e identidade.
Pedro Missioneiro—O Continente Mestiço de índia com branco, criado pelo Pe. Alonso nas Missões Jesuíticas. Pai do filho de Ana Terra. Sua origem mestiça é a raiz de toda a linhagem Terra-Cambará e o símbolo da miscigenação fundadora do Rio Grande do Sul.
Ana TerraTerraO Continente Filha de colonos paulistas, figura arquetípica de resiliência feminina. Tem um filho com o índio Pedro Missioneiro após ser proibida pelo pai. Sobrevive sozinha à destruição da família e recomeça em Santa Fé. Matriz de toda a linhagem Terra-Cambará.
Capitão Rodrigo CambaráCambaráO Continente Aventureiro destemido e gaúcho arquetípico. Chega intempestivamente em Santa Fé, casa-se com Bibiana Terra após duelo com Bento Amaral e morre heroicamente na Revolução Farroupilha.
Bibiana Terra CambaráTerra/CambaráO Continente Neta de Ana Terra, esposa do Capitão Rodrigo. Mulher de estoicismo exemplar que sustenta a família e o Sobrado por décadas. Regina Zilberman a descreve como uma "duplicação" da avó: "também é Ana, e Ana duas (bi) vezes".[12]
Licurgo CambaráCambaráO Continente / O Retrato Neto de Bibiana. Torna-se intendente de Santa Fé, abolicionista e republicano. Protagonista do cerco ao Sobrado na Revolução Federalista, onde resiste durante semanas ao ataque dos maragatos liderados pela família Amaral.
Cel. Ricardo Amaral NetoAmaralO Continente Mandachuva despótico de Santa Fé e antagonista central de O Continente. Sua rixa com o Capitão Rodrigo — e depois com os Cambará — atravessa gerações e culmina no cerco ao Sobrado durante a Revolução Federalista.
Dr. Rodrigo CambaráCambaráO Retrato / O Arquipélago Médico, filho de Licurgo e homônimo do Capitão Rodrigo. Protagonista de O Retrato: representa o contraste entre o ideal de modernidade e a degradação moral progressiva, numa referência explícita a O Retrato de Dorian Gray.
Tenente Rubim Veloso—O Retrato Personagem que encarna o nietzschianismo radical, com discurso abertamente supremacista que Érico expõe com ironia corrosiva para revelar a racionalização ideológica da violência e da dominação.[24]
Maria Valéria TerraTerraO Retrato / O Arquipélago Matriarca da geração intermediária; representa a continuidade da força feminina da linhagem Terra ao longo das décadas de transição entre o século XIX e o XX.
Floriano CambaráCambaráO Arquipélago Escritor, alter ego de Érico Veríssimo. Assume postura crítica e não engajada diante dos extremismos políticos da Era Vargas, recusando tanto o fascismo quanto o comunismo.
Jango CambaráCambaráO Arquipélago Terceiro filho do Dr. Rodrigo. A dispersão das qualidades do Capitão Rodrigo entre os três irmãos (Floriano, Eduardo e Jango) é a metáfora da diluição dos valores fundadores da família ao longo do tempo.[25]
Sílvia—O Arquipélago Esposa de Jango Cambará. Protagoniza o único capítulo narrado em primeira pessoa feminina da trilogia, oferecendo um olhar externo e crítico sobre a família Cambará e os homens que a compõem.

Secundários

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PersonagemFamíliaVolume(s)Descrição
Juca TerraTerraO Continente Tropeiro bandeirante, avô de Ana Terra. Ficou encantado com o Rio Grande de São Pedro ao atravessá-lo para comerciar mulas na Colônia do Sacramento e obteve uma sesmaria na região do Rio Pardo, tornando-se o primeiro Terra a se estabelecer no sul.
Pedro TerraTerraO Continente Filho de Ana Terra e Pedro Missioneiro. Cresce em Santa Fé e torna-se o patriarca da família Terra na cidade. Pai de Bibiana e Juvenal; é quem acolhe o Capitão Rodrigo ferido após o duelo com Bento Amaral.
Juvenal TerraTerraO Continente Filho de Pedro Terra e irmão de Bibiana. Sócio do Capitão Rodrigo na venda que os dois abrem em Santa Fé; representa a estabilidade e a cordialidade que o cunhado aventureiro não possui.
Florêncio TerraTerraO Continente Primo dos Terra; pai de Alice, que se casará com Licurgo Cambará. Sua família representa o entrelaçamento das linhagens Terra e Cambará na segunda geração em Santa Fé.
Bolívar CambaráCambaráO Continente Filho do Capitão Rodrigo e Bibiana. Torna-se o senhor do Sobrado após o pai. Sua morte prematura desencadeia a "guerra miudinha" entre Bibiana e a sogra Luzia pelo controle da casa e do herdeiro Licurgo.
Luzia Silva CambaráCambaráO Continente Esposa de Bolívar Cambará. Trava com Bibiana uma batalha doméstica incessante pelo domínio do Sobrado e da criação do neto Licurgo — uma das tensões psicológicas mais memoráveis de O Continente.
Bento AmaralAmaralO Continente Filho do Coronel Amaral. Perde o duelo de esgrima crioula com o Capitão Rodrigo e, em ato de covardia, saca um revólver escondido para feri-lo. Representa a degeneração moral da oligarquia que o pai encarna com força bruta.
Carl Winter—O Continente Médico alemão de Santa Fé, presente em múltiplos capítulos de O Continente. Figura humanista e racional num ambiente dominado por paixões políticas; é ele quem diagnostica com ironia a "guerra" entre Bibiana e Luzia como uma "corrida" entre as duas.
Toríbio Rezende—O Continente Amigo e influência intelectual de Licurgo Cambará. Por sua influência, Licurgo funda

um clube republicano em Santa Fé e adere ao abolicionismo, libertando seus escravos.[22]

Coronel Jairo Bittencourt—O Retrato Representa o positivismo de Augusto Comte nos diálogos filosóficos de O Retrato.

Junto com o Tenente Rubim (nietzschianismo) e Don Pepe (anarquismo), compõe o trio que mapeia o espectro ideológico do período.[24]

Toríbio CambaráCambaráO Retrato / O Arquipélago Filho mais velho de Licurgo. Serve de mediador entre o pai conservador e o irmão Dr. Rodrigo modernizante; encarna o equilíbrio instável entre os dois mundos que coexistem em Santa Fé no início do século XX.
Flora Quadros CambaráCambaráO Retrato / O Arquipélago Esposa do Dr. Rodrigo Cambará. Testemunha e suporta a degradação progressiva do marido, tornando-se uma figura de sofrimento silencioso que ecoa as matriarcas anteriores da linhagem.
Eduardo CambaráCambaráO Arquipélago Segundo filho do Dr. Rodrigo, irmão de Floriano. Representa o oportunismo político da Era Vargas, em contraste direto com a postura ética e não engajada do irmão escritor.
Don Pepe—O Retrato Pintor anarquista espanhol radicado em Santa Fé. Convive harmoniosamente com positivistas e nietzschianos nos diálogos filosóficos de O Retrato, representando a ala libertária do espectro ideológico mapeado por Érico no volume.[26]

Árvore genealógica da família Terra-Cambará-Amaral

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Tempo, memória e identidade

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O título sintetiza o projeto filosófico da obra: a tensão entre o tempo, que acumula, sedimenta e transforma, e o vento, que dispersa, destrói e renova. Érico usa a saga familiar como metáfora da própria identidade gaúcha e brasileira, mostrando como traços de caráter, vícios e virtudes se repetem e se transformam de geração em geração. A ideia de transitoriedade está refletida na própria narrativa: os heróis do passado tiveram sua importância, tiveram seus nomes marcados na história, mas já fazem parte de um passado que se torna espectro.[27] O recurso do zigue-zague temporal em O Sobrado não é apenas formal: é a tese da obra materializada em estrutura narrativa: o passado que retorna em fragmentos cada vez mais próximos do presente, até que os dois se fundem no cerco ao Sobrado.

Raça, miscigenação e escravidão

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Um dos aspectos mais importantes e menos discutidos da trilogia é a forma como Érico confronta dois dos maiores mitos da memória histórica gaúcha: o da "branquitude do gaúcho" e o do "parco uso da mão de obra escrava no passado sulino".[28] Por meio da origem mestiça de Pedro Missioneiro, filho de índia com branco, ancestral de toda a linhagem Terra-Cambará, e da presença da escravidão como tensão moral e política em O Continente e Ismália Caré, Érico constrói uma visão do Rio Grande do Sul radicalmente mais complexa e inclusiva do que a memória oficial permitia.[28] A adesão de Licurgo ao abolicionismo, em Ismália Caré, não é apenas um episódio biográfico do personagem: é um posicionamento explícito do autor sobre a necessidade de revisão histórica.

Filosofia, política e ideologia em O Retrato

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O Retrato é o volume mais filosófico da trilogia. Nos diálogos entre os personagens Rodrigo Cambará, o Tenente Rubim Veloso e o Coronel Jairo Bittencourt, Érico incorpora ao romance os três grandes sistemas de pensamento que dominaram a intelectualidade brasileira entre o fim do século XIX e o início do XX: o positivismo de Augusto Comte, o evolucionismo social de Spencer e o conceito de super-homem de Nietzsche.[24] O Tenente Rubim é o personagem que encarna mais radicalmente o nietzschianismo, com um discurso abertamente supremacista que Érico expõe com ironia corrosiva, não para validá-lo, mas para revelá-lo como a racionalização ideológica da violência e da dominação.[24][26] Com ele convivem harmoniosamente positivistas como o Coronel Jairo e até anarquistas como o pintor espanhol Don Pepe, numa galeria que mapeia o espectro ideológico do período.[26] Esses diálogos ajudam a caracterizar as posições ideológicas de cada personagem e falam de um período crucial da história cultural e política brasileira.[24]

Guerra, política e história

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O Tempo e o Vento é uma meditação sobre a violência política que moldou o Rio Grande do Sul e o Brasil. A Revolução Farroupilha, a Guerra do Paraguai, a Revolução Federalista e a Era Vargas não são pano de fundo decorativo: são forças que destroem famílias, definem caracteres e revelam as contradições de uma sociedade. A representação da História no romance deve grande parte de sua força ao uso da imprensa como fonte, através de jornais e telégrafos que chegam ao Sobrado e ao Retrato como mediadores entre o grande mundo e a vida provinciana de Santa Fé, numa tensão constante entre o local e o nacional.[29]

A postura de Érico diante da história é a de um humanista que recusa os fanatismos de todos os lados. Uma característica constante em sua obra é a defesa da ética e da liberdade, do ponto de vista humanista, contra toda e qualquer forma de violência e de regime totalitário.[11] Essa postura é encarnada em Floriano Cambará, um alter ego do escritor, responsável pela leitura crítica da sociedade e porta-voz dos valores ideológicos da ficção de Érico.[11] Revelando-se republicano, liberal e democrata, Rodrigo Cambará em O Retrato é também, para a crítica, um exemplo de tolerância: com ele convivem positivistas, nietzschianos e anarquistas, sem que nenhuma dessas visões seja apresentada como definitiva.[26]

As personagens femininas

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Os personagens masculinos de O Tempo e o Vento, principalmente em O Continente, revelam a imagem que geralmente se faz do homem gaúcho, valente e machista. Mas realmente fortes, principalmente no sofrimento, são as personagens femininas de Érico: Ana Terra, Bibiana e Maria Valéria constituem as matriarcas da família e suas qualidades se mantêm ao longo das gerações. Como indica Regina Zilberman, "Bibiana duplica a avó não apenas por se assemelhar a ela, mas por portar seu nome em duplicata: também é Ana e Ana duas (bi) vezes."[12] As qualidades definidoras dos patriarcas da família Cambará, por outro lado, definem-se no personagem do Capitão Rodrigo, consolidam-se em Licurgo, mas depois se dispersam primeiro entre Toríbio e Rodrigo Terra Cambará (filhos de Licurgo), e depois ainda mais entre os três filhos deste: Floriano, Eduardo e Jango.[25]

Essa ênfase nas figuras femininas tem raiz autobiográfica: Érico sofreu com a separação traumática dos pais ainda na adolescência, numa época em que a separação de casais era inaceitável. A perseverança da mãe, que trabalhava como costureira para sustentar Érico e seu irmão Ênio, foi certamente sua inspiração na criação dessas mulheres fortes. A tesoura que Bibiana usa para cortar o cordão umbilical das gerações seguintes é, segundo a crítica, o símbolo central dessa linhagem matriarcal: "o próprio significado do que é ser gaúcho nessa obra é simbolizado por essa tesoura, porque todas as gerações a carregam".[30]

Recepção crítica

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A trajetória da recepção crítica de Érico Veríssimo começa sob o signo da restrição, muito mais do que da aceitação.[31] Sua obra deslocava a literatura sulina do filão regionalista para uma dimensão mais universal, para a qual a crítica rio-grandense não estava preparada para receber.[31] Desde o início da carreira, Érico se viu preso num paradoxo ideológico incômodo: os esquerdistas o acusavam de pequeno-burguês, por recusar o engajamento partidário, enquanto a polícia do Estado Novo o perseguia como esquerdista, pela denúncia social presente em seus romances. Como descreveu a crítica Eunice Moreira, "os esquerdistas o acusam de pequeno burguês e a polícia o persegue como esquerdista, violentando a natureza do contador de histórias que ele quer ser".[31]

O próprio Érico jamais se filiou a nenhum partido político e resistia à etiqueta de escritor engajado. Ele preferia se definir como um simples "contador de histórias", comprometido não com ideologias, mas com a defesa da ética, da liberdade e da dignidade humana contra qualquer forma de totalitarismo.[11] O crítico Daniel Fresnot, em estudo sobre o posicionamento político do romancista, definiu-o como um left-liberal, um liberal de esquerda, cuja recusa ao panfletarismo era, em si, uma postura política de coragem.[32]

Consolidação crítica

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Com a publicação de O Continente em 1949, a recepção começou a mudar. A trilogia foi progressivamente reconhecida como um marco da literatura brasileira do século XX. Inserida no chamado Romance de 30, caracterizado por obras de cunho neorrealista que aliam a descrição crítica do Realismo às investigações psicológicas e às liberdades linguísticas do Modernismo, é frequentemente comparada a obras como Grande Sertão: Veredas (João Guimarães Rosa), Vidas Secas (Graciliano Ramos) e O Quinze (Rachel de Queiroz).[5] Para Flávio Loureiro Chaves, a obra deu ao romance histórico brasileiro "a chave da sua resolução formal" e assinala "um dos pontos fortes do nosso diálogo com a literatura ocidental".[3]

Bordini e Zilberman definem O Tempo e o Vento como um "romance fundacional", exaltando seu "sentido dialógico, que evita a conciliação dos contrários, em termos das vozes culturais que nele soam".[33] Para as pesquisadoras, a trilogia realizou o que os escritores brasileiros há muito tentavam criar: um romance histórico que mostrasse a composição da nação nos âmbitos social, étnico e econômico.[9] Antônio Cândido, por sua vez, atribuiu à literatura de Érico o que chamou de capacidade de olhar a sociedade "com olhos retos".[34] A obra integra currículos escolares e universitários em todo o Brasil e é considerada por muitos críticos a expressão literária definitiva da identidade gaúcha.[13]

Influência e legado

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Santa Fé e Macondo: a influência sobre García Márquez

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Na Galeria Érico Veríssimo, da Livraria do Globo, em Porto Alegre, turista diante de painel que mostra Érico e o editor Henrique Bertaso com a edição francesa de O Tempo e o Vento (foto: Luiz Moraes).

A repercussão de O Tempo e o Vento ultrapassou as fronteiras brasileiras e alcançou escritores de toda a América Latina. O elo mais documentado é a relação com Gabriel García Márquez, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1982 e autor de Cem Anos de Solidão. A história dessa influência tem uma circunstância precisa: em 1986, García Márquez atuou como presidente do júri do Festival Internacional de Cinema de Havana e defendeu com entusiasmo a premiação da minissérie O Tempo e o Vento (1985), resultando na concessão do maior prêmio da competição, o Coral Negro, à adaptação televisiva.[7] Ao reencontrar o roteirista Doc Comparato, responsável pela minissérie, García Márquez revelou a origem de seu interesse pela obra de Érico:[7]

Coño! O Tempo e o Vento foi um dos três livros que estudei para escrever Cem Anos de Solidão. Veríssimo foi genial ao manejar a saga de uma família através dos tempos. É uma pena que tão poucos brasileiros reconheçam isso. Enfim, te escolhi para trabalhar comigo porque você conseguiu adaptar minha fonte inspiradora.

A influência, no entanto, ia muito além da estrutura narrativa. García Márquez declarou em mais de uma ocasião que criou a cidade imaginária de Macondo sob inspiração direta de Santa Fé, a cidade fictícia de Érico Veríssimo.[35] O escritor Luís Fernando Veríssimo, filho de Érico, confirmou que García Márquez "disse que meu pai, Érico Veríssimo, era uma de suas principais influências".[36]

A semelhança estrutural entre as duas obras foi objeto de extenso estudo acadêmico. A tese Vento em tempo de solidão: a saga dos Buendía e dos Terra-Cambará, da PUC-SP, demonstra que as duas narrativas configuram-se como sagas com um tempo circular — comprovado pelas repetições de acontecimentos e tipos psicológicos nas gerações sucessivas das famílias — e com a criação de um espaço mítico representado pelos povoados de Santa Fé e Macondo.[37] O diálogo entre as obras também se faz presente na visão da história que se mistura com a ficção, promovendo um emaranhado de lendas e contos populares guardados pela memória que formam um mosaico narrativo que tem no seu cerne a formação de duas sociedades: a rio-grandense e a colombiana.[37] Outra dissertação da UFRGS, Memória, experiência e ficção em Cem Anos de Solidão e O Tempo e o Vento, aprofunda a comparação a partir da teoria de Paul Ricoeur sobre o aspecto temporal na narrativa, mostrando como os dois autores partem de memória e experiência pessoal para construir suas sagas ficcionais.[38]

Presença nos currículos e na cultura gaúcha

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O Tempo e o Vento é obra de leitura obrigatória ou recomendada em cursos de Letras e História em universidades de todo o Brasil, e integra os conteúdos de literatura brasileira no ensino médio do Rio Grande do Sul.[13] A trilogia é descrita pelo Instituto Ling como um "monumento literário que renova continuamente seu fascínio junto a leitores de diferentes gerações".[39] O projeto de sua criação remonta a 1939, quando Érico já pensava em um "massudo romance cíclico", que então se chamaria Caravana — nome descartado quando a iminência da Segunda Guerra Mundial o levou a escrever primeiro o romance Saga. A ideia só seria retomada em 1947, com o início da escrita de O Continente.[8]

O título original: O Vento e o Tempo

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O título que Érico deu inicialmente à sua trilogia era O Vento e o Tempo e assim permaneceu quando os originais foram mandados para impressão na Editora Globo. Somente quando a primeira edição já estava prestes a ser lançada é que o título foi invertido.[1] A diferença não é cosmética: em O Vento e o Tempo, o vento — símbolo da mudança e da agitação — precede e governa o tempo; em O Tempo e o Vento, o tempo é a dimensão primária e permanente, sobre a qual o vento age como força passageira. A inversão resume, numa sequência de quatro palavras, a tese filosófica de toda a trilogia.

Adaptações[40]

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O Tempo e o Vento é uma das obras literárias brasileiras com maior número de adaptações audiovisuais.[40] O tom de aventura épica que conduz O Continente fez deste o volume mais buscado pelas adaptações, em especial pelos personagens Ana Terra e Capitão Rodrigo.[39]

O Sobrado (1956)

A primeira adaptação audiovisual de O Tempo e o Vento foi o longa-metragem O Sobrado, dirigido por Walter George Durst e Cassiano Gabus Mendes.[39] A trama recorta do livro a luta de Licurgo (Fernando Baleroni) para proteger o casarão dos Terra-Cambará do cerco das tropas da família Amaral durante a Revolução Federalista.

Um Certo Capitão Rodrigo (1971)

Dirigido por Anselmo Duarte, com Francisco di Franco no papel de Rodrigo Cambará e Elza de Castro como Bibiana. Adapta o capítulo homônimo de O Continente.[39]

Ana Terra (1972)

Dirigido por Durval Garcia, estrelado por Rossana Ghessa no papel de Ana Terra. Adapta o capítulo homônimo de O Continente.[39]

O Tempo e o Vento (2013)

Longa-metragem sob direção de Jayme Monjardim, livremente adaptado de O Continente.[41] O elenco inclui Thiago Lacerda (Capitão Rodrigo), Cléo Pires (Ana Terra), Marjorie Estiano e Fernanda Montenegro (Bibiana em diferentes fases), além de Mayana Moura, entre outros.

Televisão

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O Tempo e o Vento (1985) — TV Globo

Minissérie em 12 capítulos, adaptada e dirigida por Doc Comparato e Paulo José, baseada em O Continente. Foi exibida pela TV Globo e venceu o Coral Negro no Festival Internacional de Cinema de Havana de 1986, após ser defendida pessoalmente por Gabriel García Márquez como presidente do júri.[7]

Ana Terra (1972) — TV Cultura

Adaptação televisiva do capítulo homônimo, exibida pela TV Cultura.[39]

A obra também foi adaptada para o teatro em diversas montagens ao longo das décadas, com destaque para encenações no Rio Grande do Sul que se tornaram marcos da dramaturgia gaúcha.[40]

Referências

  1. 1 2 Autores, Vários (6 de julho de 2003). Cadernos de Literatura Brasileira. Carlos Heitor Cony. [S.l.]: IMS
  2. ↑ VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
  3. 1 2 3 CHAVES, Flávio Loureiro. In: GONÇALVES, Robson Pereira (org.). O Tempo e o Vento: 50 anos. Santa Maria: UFSM; Bauru: EDUSC, 2000, p. 70-73.
  4. ↑ O livro do mês, por Sergius Gonzaga
  5. 1 2 3 Maria da Glória e Zilberman, Regina — "O Tempo e o Vento: História, Invenção e Metamorfose", páginas 16-17. EDIPUCRS
  6. 1 2 LUME — Repositório Digital da UFRGS. Vento em tempo de solidão: análise comparada de O Tempo e o Vento e Cem Anos de Solidão. p. 1.
  7. 1 2 3 4 5 REVISTA CULT. A saga que se move. UOL, 2010.
  8. 1 2 3 SCRIBD. A origem do projeto de O Tempo e o Vento, p. 3.
  9. 1 2 3 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PAMPA. O Tempo e o Vento e a cultura popular gaúcha. p. 1.
  10. ↑ GUIA DO ESTUDANTE. O Tempo e o Vento — análise da obra de Érico Veríssimo. Abril, 2012.
  11. 1 2 3 4 UFRGS — LUME. A liberdade de escrever em Erico Verissimo, p. 3.
  12. 1 2 3 ZILBERMAN, Regina. "O Tempo e o Vento: história, mito, literatura." Letras de Hoje (PUCRS), set. 1986, p. 84.
  13. 1 2 3 Concepção geral de O Tempo e o Vento, por Adauto Locatelli Taufer[ligação inativa]
  14. ↑ VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento — O Continente. São Paulo: Editora Globo, 1995. Volume II, p. 537.
  15. ↑ VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento — O Continente. São Paulo: Editora Globo, 1995. Volume II, p. 538.
  16. ↑ VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento — O Continente. São Paulo: Editora Globo, 1995. Tomo II, p. 559-657.
  17. ↑ VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento — O Continente. São Paulo: Editora Globo, 1995. Tomo I, p. 21-60.
  18. ↑ VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento — O Continente. São Paulo: Editora Globo, 1995. Tomo I, p. 73-145.
  19. ↑ VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento — O Continente. São Paulo: Editora Globo, 1995. Tomo I, p. 171-309.
  20. ↑ VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento — O Continente. São Paulo: Editora Globo, 1995. Tomo II, p. 327-459.
  21. ↑ VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento — O Continente. São Paulo: Editora Globo, 1995. Tomo II, p. 477-555.
  22. 1 2 VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento — O Continente. São Paulo: Editora Globo, 1995. Tomo II, p. 570-571.
  23. ↑ VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento — O Continente. São Paulo: Editora Globo, 1995. Tomo II, p. 640.
  24. 1 2 3 4 5 LETRÔNICA (PUCRS). Diálogos filosóficos em O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo. v. 6, n. 2, 2013, p. 682-698.
  25. 1 2 YOUNG, Theodore Robert. O Questionamento da História em O Tempo e o Vento de Erico Verissimo. Lajeado: Univates, 1997.
  26. 1 2 3 4 FERRO. "Um sopro épico." Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 47, n. 4, p. 402-412, out./dez. 2012. Disponível aqui.
  27. ↑ GUIA DO ESTUDANTE. O Tempo e o Vento — Análise da obra de Érico Veríssimo. Abril, 2012.
  28. 1 2 UNICAMP — Remate de Males. Problemas históricos e soluções ficcionais em Erico Verissimo. 2016.
  29. ↑ ABRALIC. A imprensa como fonte de pesquisa e representação em O Tempo e o Vento. 2013.
  30. ↑ SIMIONI, Rafael. O tempo e o vento — a história do Rio Grande do Sul na literatura. YouTube, 2023.
  31. 1 2 3 MOREIRA, Eunice. "A recepção crítica de Erico Verissimo." Aletria (UFMG), 2011, p. 2-4. Disponível aqui.
  32. ↑ MARCON, Daniele. Erico Verissimo e o Rio Grande do Sul. Dissertação (Mestrado). Universidade de Caxias do Sul, 2013, p. 12.
  33. ↑ BORDINI; ZILBERMAN apud AGENDAPÓS UNESP. O Tempo e o Vento — fortuna crítica, p. 3.
  34. ↑ BUENO; CÂNDIDO apud UFSC. Nas entrelinhas da boa vizinhança, p. 12.
  35. ↑ CADERNOS LITERÁRIOS — FURG. García Márquez e Erico Veríssimo: cidades imaginadas. p. 119.
  36. ↑ G1 GLOBO. "Era um escritor universal", comenta Veríssimo sobre García Márquez. GloboNews, 2014.
  37. 1 2 SAPIENTIA PUC-SP. Vento em tempo de solidão: a saga dos Buendía e dos Terra-Cambará. 2005.
  38. ↑ UFRGS — LUME. Memória, experiência e ficção em Cem Anos de Solidão e O Tempo e o Vento. 2015.
  39. 1 2 3 4 5 6 INSTITUTO LING. O Tempo e o Vento: o universo de Erico Verissimo além da identidade gaúcha. 2022.
  40. 1 2 3 As adaptações de O Tempo e o Vento na televisão, no cinema e no teatro
  41. ↑ O Tempo e o Vento — Nexus Cinema

Ligações externas

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